quinta-feira, 20 de setembro de 2012

ETNOGRAFIA, CHAT E GLS: ENCONTRO POSSÍVEL?

Com este ensaio pretendo analisar um Disque Amizade GLS da cidade de Fortaleza. No caso falo do serviço telefônico 3468 3000, criado para atender ao público de gays, lésbicas e simpatizantes da capital do Ceará. A Etnografia foi criada originalmente para descrever povos e etnias indígenas e só mais tarde também foi utilizada para descrever os hábitos e códigos culturais de outras comunidades. Descrever os hábitos, gestos, símbolos, ritos e mitos de uma comunidade exige que o pesquisador se disponha até ir ao seu lócus de pesquisa. Mas e quando se trata de observar os hábitos e representações de uma comunidade de falantes como de uma sala de bate-papo gols telefônico? Aqui a tarefa pode se tornar temerária e difícil, pois uma coisa é o pesquisador ir até um ilê de candomblé ou uma igreja evangélica ou a sede de um coletivo de anarco-punks observar e registrar o que percebe nesse lugar. Mas quando se trata de uma comunidade fluida como é uma sala de bate-papo? Como observar regularidades e recorrências quando a cada cinco minutos a sala se preenche de novas pessoas e sem falar que essas pessoas podem assumir personalidades que não são as suas? Qual a relevância de observar gays, lésbicas e bissexuais conversando num serviço telefônico? Esse estudo pode fornecer dados para pesquisadores em etnografia e psicologia social, pois ao dar ouvidos ao que esses indivíduos conversam somos confrontados com suas crenças e cosmovisões particulares. No serviço não há só pessoas que ligam da cidade de Fortaleza, mas também usuários que ligam da região Metropolitana, de cidades mais afastadas como Juazeiro e eu já conversei com um rapaz que falava de Pernambuco. A questão da identidade numa sala como essa é bem curiosa. Muitas pessoas usam nomes falsos e até criam personalidades postiças. Homens, originalmente másculos no seu cotidiano, na sala atendem pelo nome de Panela Skylab e usam gíria do universo das drag-queens e das travestis. Os objetivos de quem liga varia muito. Vai desde homens casados que ligam para marcar um encontro sexual e furtivo com outro usuário enquanto a esposa enfermeira foi dar um plantão até rapazes que ligam apenas para ouvir os amigos que participaram do show da Alanis Morisseti. As representações que esses usuários têm da comunidade homossexual, assim como a cosmovisão gls é bem peculiar. Revela uma comunidade, um pertencimento populacional de hábitos culturais bem específicos. Ao ouvir essas pessoas o pesquisador pode identificar o preconceito e a desigualdade social que também existe no universo ideológico da comunidade de homoafetivos. Várias vezes presenciei homens gays da Aldeota perguntando se havia gays do mesmo bairro na sala, pois segundo eles não queriam conversar com os gays das regiões mais pobres de Fortaleza. Isso se evidencia ou em afirmações explícitas ou em comentários jocosos sobre o que esses gays endinheirados denominam de bichas pão-com-ovo. O preconceito e a elitização econômica também ficam evidenciados: quando se ouve os gays que foram para o show da Alanis Morisseti fazerem questão de frisar o quanto gastaram no preço do ingresso, no consumo de bebidas e iguarias caras durante o show e no retorno para casa tarde da madrugada em carros caros e importados. As representações desses indivíduos revelam porque a indústria do entretenimento investe tanto nesses gays endinheirados e revela também a lucratividade de apostar nesse "nicho de mercado". Certa vez foi interessante ouvir de uma drag-queen como ela compreende o relacionamento homossexual. Basta ver o filme americano O segredo de brokeback mountain, pois lá há a explicação de como termina todo relacionamento entre gays: um morto e outro: olhando para uma jaqueta. O que se pode perceber nos usuários desse serviço é de que há um queixa comum: a da solidão. E dá para se concluir o motivo, pois na pós-modernidade a tônica dos relacionamentos e dos vínculos é o esgarçamento, a superficialidade dos contatos. As pessoas vivem um paradoxo de não quererem fidelizar relações e ao mesmo tempo quererem estabilidade. Como posso ter estabilidade se não me fidelizo ou não me ligo profundamente a ninguém? Uma coisa que merece menção é a participação lésbica na sala: pequena e contida. E outra menção é a grande quantidade de bissexuais que ligam para o serviço com intenções apenas de satisfazer genitalmente seus instintos sem maiores vínculos.

O QUEER ANTE O FIM DO DO SISTEMA DE GÊNEROS

O QUEER ANTE O FIM DO SISTEMA DE GÊNEROS Este estudo é muito ambicioso começando pelo próprio título. E para tal me amparei numa bibliografia que inclui o estudo Teses pelo fim do sistema de gênero da ativista cearense Ilana Amaral (publicada na Revista Contraacorrente Nº. 10 Maio-Agosto de 2000), no zine Incógnito: pós-identidade queer do ativista paraibano Lucas Altamar e também no livro Preconceito contra homossexualidades: a hierarquia da invisibilidade de Marco Aurélio Máximo Prado e Frederico Viana Machado publicado pela Editora Cortez em 2008. Mas é lógico que para falar de queers, gênero, sexualidades; a bibliografia não pode só se resumir aos citados. Também vale à pena ler a obra ensaística de João Silvério Trevisan (como também sua excelente obra ficcional); assim como, valeriam ver os contos, romances de autores como Silviano Santiago, Caio Fernando Abreu e João Gilberto Noll. Outro problema desse meu estudo é que ele tem como destinatário principal a militância anarquista ou libertária que lê meu Blog. E esse público não gosta muito do academicismo ou intelectualismo pedante. Por outro lado, não terei culpa se o texto trair aqui e ali um ou outro academicismo, que pode ser interpretado como beletrismo preciosista ou pedantismo esnobe. Minha intenção foi a de fazer um texto mais claro e acessível possível, um texto militante sem dúvida. Espero ter conseguido. AS TESES PELO FIM DO SISTEMA DE GÊNEROS “ Toda a vida humana foi em nosso tempo, submetida ao domínio da economia através do desenvolvimento histórico do sistema de produção de valores.” Ilana Viana Amaral O texto Teses pelo fim do sistema de gêneros é um texto de 2000. E como tal reflete aquele momento de efervescência em torno da agenda dos chamados movimentos de Antiglobalização, da AGP(Aliança Global dos Povos) e das agitações dos manifestantes contra a reunião da OMC em Seattle em 1999. Ilana Amaral, na revista, apresenta o texto como uma primeira versão de um conjunto de teses apresentadas como contribuição ao debate, ao Seminário Internacional Sobre Gênero em San Cristobal de las Casas, Chiapas, México, em Maio/Junho de 2000. O texto é longo, denso e apresenta em 16 longas teses um vigor crítico e cáustico impressionante. Talvez o leitor encontre uma versão virtual na Internet, basta colocar o título nos buscadores da internet que talvez recupere alguma coisa. Inclusão ou exclusão do mercado? Trata-se assim de uma completa economização da vida, da redução da vida à economia. Eis a constatação inicial de Ilana. “O mercado é a supressão radical do indivíduo”. Isso significa que enquanto sou trabalhador, proprietário – ou negativamente, uma desempregada, uma despossuída – (é sempre desse modo que um indivíduo existe para e no mercado), não sou um indivíduo, ou seja, não sou alguém dotado de existência, sentimentos, aspirações, desejos próprios e únicos, mas sou precisamente um mais de uma espécie, ou seja, um trabalhador, um proprietário, um desempregado. ” “A negação da individualidade que se realiza sob o domínio do mercado se apresenta, contraditoriamente, como aparição do indivíduo.” “É assim que os movimentos sociais que manifestam a explosão da reivindicação da diferença são continuamente integrados na lógica mercantil: mulheres – trabalhadoras, consumidoras, nicho de mercado que se abre com a explosão da luta em torno do direito feminino; GLS – consumidores, nicho de mercado, e mercado potencialmente abundante, dizem os analistas, nicho de alta rentabilidade, de alta expectativa de consumo. Negros – consumidores, nicho de mercado: “Negro classe A também consome”. O “politicamente correto” é a expressão mais visível, na esfera dos direitos, da tentativa de captura pela lógica mercantil, da explosão da diferença; todas as formas discriminação são passíveis da intervenção de um advogado litigante em busca de indenizações. ” Ilana Amaral fala na estetização que “transforma movimentos autônomos de reivindicação do direito à diferença em ‘nichos de mercado’ é apenas a sua face mais visível: “um novo modo de ser mulher”, “Negro é lindo”...assim, os mass media, incorporam cotidianamente, os apelos da diferença como apelos de consumo”. Ilana Amaral fala do que entende por inclusão social: “trata-se da inclusão social do diferente pelo e no mercado. Redução, portanto, da diferença, à identidade abstrata de ‘consumidores’. Ilana Amaral é radical e propõe a destruição do Mercado: “Destruir o mercado é condição sine qua da constituição da individualidade, da aparição real das diferenças negadas pela universalização da forma mercadoria. Se não nos contentamos em ser portadores (ou em nossa maioria, nas condições do capitalismo atual, não portadores) de mercadorias, é preciso pôr no lugar das relações mediadas pelo dinheiro, relações diretas entre os indivíduos. Sem compreender a centralidade da necessidade da destruição do mercado, não é possível sequer falar de vida: estaremos sempre na esfera do simulacro, na esfera da pura representação da vida. ” Na tese 9, llana Amaral define o que entende por Gênero: “O gênero é uma invenção histórica da humanidade, um modo de identidade, de supressão da diferença que se origina numa dada diferença/identidade naturais, a amplifica e institui a partir dela todo um sistema hierárquico e classificatório." Ilana Amaral é contra a naturalização do Gênero: “O gênero não é, pois, um dado natural, mas um modo historicamente determinado de classificar os indivíduos da espécie humana com base numa dada identidade/diferença biológicas, apenas uma entre tantas possíveis.”. Ilana Amaral questiona o papel da tradição: “Se a tradição, se a herança patriarcal é já fundamento de tal naturalização do sistema de gêneros, a introdução das relações mercantis, mais que reforçar a naturalização aprofunda, amplia e universaliza tal naturalização. ” Ilana Amaral dimensiona o papel da hierarquização: “O Gênero – como todo sistema classificatório – implicou, historicamente, uma classificação, uma normatização e uma hierarquização. É a partir da identidade de gênero que se instituem as representações próprias à ‘natureza’ do Masculino e do Feminino: o macho caçador – provedor, a fêmea reprodutora; o masculino, ativo e o feminino, receptivo.” Algo permanece: “uma permanência central: a hierarquização dos papéis e o lugar da subalternidade do Feminino.”. A ativista cearense dimensiona o patriarcado: “Foi do ponto de vista de sua gênese histórica, o patriarcado que inaugurou o poder nas relações humanas. A dominação de gênero é, assim, historicamente, fundadora – anterior, portanto à dominação étnica, à dominação de classe.”. E Ilana Amaral recomenda que na negação do sistema capitalista: “Se a negação do sistema, como foi dito acima, encontra o seu lugar privilegiado, quanto ao sistema de gêneros, nas mulheres e homossexuais, pela sua condição de subalternidade, que seja no combate à subalternidade submetendo ao combate mesmo a idéia de gênero enquanto tal, ou seja, que o combate à subalternidade do feminino e à exclusão possa ir à raiz do problema compreendendo que a crítica à situação de opressão feminina ou contra a homofobia só se realiza, na radicalidade, como crítica ao sistema de gêneros em sua totalidade, ou seja, como crítica ao sistema enquanto tal.”. Em tom ligeiramente diferente é o texto do ativista paraibano Lucas Altamar Incógnito: pós-identidade queer. Lucas começa o texto com bom humor e ironia dizendo não achar agradável fazer um “dossiê de estudos queer”. E se assume como um queer falando da perspectiva de dentro, enquanto os acadêmicos falam do queer bacharelisticamente. Diferente de Ilana Amaral, que por ser professora universitária, imprime um tom de seriedade ao texto, Lucas tem um estilo que comporta digressões pessoais e narrativas, uso de gíria juvenil, entre outros recursos estilísticos. Tanto que diz ser seu estudo “uma produção marginal queer”. MAS O QUE DIABO É QUEER MESMO? “Paradoxalmente, admitimos mais uma vez que a pós-identidade queer exprime uma recusa em levar a sério as identidades, que há um século, serviriam para designar e mais frequentemente que outra coisa, em ostracizar os indivíduos em razão de seu sexo, de seu gênero ou de suas diferenças eróticas”. Lucas Altamar Segundo as pesquisas filológicas que Lucas fez, Queer (kui’r) vem de uma etimologia confusa que tanto registra o termo literal “bizarro”, mas que pode ser também, mas atualmente entendido como “original, excêntrico, singular, raro, infrequente”. Pelo que entendi da explicação de Lucas Altamar, o termo vem do coloquial inglês, seria a gíria mais próxima de “estranho” em português, parecendo ser a superposição do significado da palavra queen “rainha”. Assim o significado desta confusa gíria seria usado para fazer alusão a um ser masculino bastante efeminado, pois este seria ao mesmo tempo uma rainha e algo masculinamente excêntrico. Em sua pesquisa, o ativista paraibano diz que o termo foi variando de época para época e de lugar para lugar. A HISTÓRIA DO QUEER Enquanto Ilana Amaral centra sua munição discursiva no Mercado, Lucas vê o Estado como inimigo máximo. E vê o queer como uma movimentação que surge da necessidade de uma libertação dos separatistas e excludentes reivindicações dos movimentos que anteriormente tinha o status de oprimidos e que, na sua avaliação, acabaram sendo absorvidos pelo Estado. Lucas entende identidade como “contíguo de caracteres próprios e exclusivos de determinada pessoa. Este conceito, entretanto, está ligado a atividades da pessoa, à sua biografia, ao amanhã, sonhos, mitos, características de originalidade e outras características relativas ao sujeito.” Segundo o autor do CD Verborreia, o movimento gay identitário hoje gosta datar seu ponto de início a partir do final dos anos sessenta, e, em particular é claro, dos motins de Stonewall em 1969. QUAL A PROPOSTA DE LUCAS ALTAMAR? “Nós queers chamamos a uma segunda revolução sexual, mas, uma liberação que transformaria mesmo o modo de pensar a sexualidade e de compor com ela, e assim compreender sobre os planos social e político”. Em suma, o “queer compreende, portanto, rejeitar diretamente as identidades dicotômicas homem/mulher, masculino/feminino, hetero/homo.”. O autor se reconhece tributário do legado do movimento LGBT e feminista, mas pretende ser mais radical. Lucas diz que feministas, lésbicas e gays ortodoxos não se cansam de criticar a perspectiva queer, “em razão de sua vontade reunida que terminaria por minimizar ou apagar, acreditam eles, a especificidade de uns e outros.” “Não exigimos que cada um negue seus pertences, mas antes que percebam seu caráter contingente, arbitrário e político”. “Nossa vontade é de emancipação e até de subversão em matéria de sexualidade” CONSIDERAÇÕES FINAIS Analisando os dois autores, Ilana Viana Amaral e Lucas Altamar, perceberemos que dois estilos de apreensão da realidade se antagonizam em alguns momentos e enquanto em outros são complementares. Ilana Amaral, professora de Filosofia e leitora da crítica da economia política de Marx, referencia sua tese do fim do sistema de gêneros, dentro do esquema conceitual da teoria do valor e do fetichismo da mercadoria. Lucas Altamar, poeta multimídia e ativista anarco-punk queer, procura destruir a noção de movimentos identitários a partir de sua vivência contracultural, respalda sua crítica dentro das lides do anarquismo contemporâneo. Eu vejo um problema na tese Queer. Trata-se de uma crítica aos movimentos identitários – negro, feminista, LGBT - que propõe, no final das contas, outro movimento identitário: o queer. Ou seja, eu não posso ser homem, ser mulher, ser homo, ser hetero, ser bi, mas posso ser queer. Então o que parece a rigor ser uma tentativa de livrar o ser humano de etiquetas ou gavetas classificatórias, acaba criando uma nova gaveta classificatória: o queer. Mas eu posso estar equivocado e talvez não tenha entendido o queer em toda sua potência ou latência revolucionária. Um outro texto de outro zineiro, ativista e realizador audiovisual, Rui, já acrescenta mais dados à questão; utilizando-se de uma categoria teórica que eu não conhecia – heteronormatização. Parece que a questão queer embora tenha começado no underground da contracultura homoafetiva americana na década de 60, pode ainda suscitar várias interpretações divergentes ou convergentes. E caso o leitor se interesse, no site de downloads www.4shared.com há uma versão eletrônica do texto de Lucas Altamar.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

ARTE NA PÓS-MODERNIDADE





A ARTE PÓS-MODERNA

Este texto tem como mote a composição "Bienal" de Zeca Baleiro do Cd "Vô Imbolá" (MZA).Nela o compositor maranhense disserta com ironia e bom humor sobre a temática da 23ª Bienal Internacional das Artes Plásticas de São Paulo (1996): "Desmaterialização da obra de arte no fim do milênio". Ou seja, em que medida o quadro contemporâneo transcende a limitação da moldura. Ou o que sinaliza a crítica ao suporte tradicional. Assim, a pintura pode sair da tela e/ou o espectador é convidado a entrar na escultura.

A arte moderna tendia à militância política. Procurava cantar as glórias da tecnociência como no caso do Futurismo Italiano, ou, pelo contrário, procurava denunciar o cenário caótico da modernidade urbana do capitalismo industrial, como nas cores fortes do cubismo e do fauvismo ou na cinzenta deformação da realidade do expressionismo alemão.

A arte pós - moderna " chamada, acertadamente, por alguns teóricos de "arte pós - vanguarda"- renuncia a qualquer messianismo. Não quer salvar a raça humana do colapso da modernização como disse Robert Kurz ou propor qualquer utopia capaz de suplantar a barbárie resultante desse colapso. Desse modo, o artista pós - moderno vê-se num pêndulo entre o niilismo sinistro da morte de Deus e o narcisismo hedonista e cínico da apologia do consumo. Isso se traduz pictoricamente em negativos fotográficos corroídos por ácido justapostos na parede ou nas latas de sopa Campbells de Andy Wahrol.

A arte pós - moderna aponta para um impasse do homem pós - moderno: que caminho iremos tomar daqui para frente? Num contexto em que cada vez mais pessoas se tornam coisas e coisas se tornam pessoas, como Marx previa na sua crítica ao fetichismo da mercadoria, o que propor para raça humana? Será que ainda existem propostas plausíveis ou viáveis? A impressão que se tem ao visitar as exposições do Museu de Arte Contemporânea do Centro Dragão do Mar (Fortaleza - Brasil) é de que o homem não tem mais nenhum projeto aglutinante e de que a arte atual é, ou seria, a própria celebração desse atomismo.

Há um aspecto, entretanto, que tem de ser evidenciado na arte contemporânea e sua tendência à ruptura com o suporte. Seria o caráter não - comercial desta arte. Qual burguês irá comprar as esponjas de aço enferrujadas da artista - plástica gaúcha Elida Tessler? E isso é muito bom, numa época em que os executivos americanos dizem tudo estar à venda, inclusive, a dignidade humana.

Portanto, percebo um potencial subversivo na arte atual. Que é o de revelar a insustentabilidade do projeto civilizatório moderno. Negando a sociedade produtora de mercadorias e sua sociabilidade viciada quando produz "trambolhos" que não podem ser empendurados na parede ou que sujariam as estantes dos apartamentos burgueses.

RETRATO PARCIAL DOS NEGROS CEARENSES






RETRATO PARCIAL DOS NEGROS CEARENSES


Este artigo é uma análise do evento promovido pelo Museu do Ceará: Seminário Negros no Ceará: História, Memória e Etnicidade.


O evento foi realizado aqui em Fortaleza nos dias 18, 19 e 20 de Junho de 2008; foi promovido pela Associação Amigos do Museu do Ceará e teve o apoio da Unegro - União de Negros pela Igualdade.


A minha análise desse evento é fragmentada porque minha participação foi fragmentada.Não tive condições financeiras de participar de todas as atividades e horários oferecidos pelo seminário.Até porque coincidiu com a fase em que estava divulgando na cidade o Curso Panorama da Mitologia Afro-brasileira, sem patrocínio e com todas as dificuldades de quem divulga cursos dessa natureza numa cidade marcada pelo catolicismo branco de matriz ibérico, onde a população negra tem uma baixa auto-estima tão grande que adota a religião do branco e não se assume negra: - Não senhor, sou moreno escuro.


O seminário partiu de uma premissa bem crítica enunciada em seu folder:

"A abolição do escravismo negro, coincide em 1884 no Ceará, foi um dos fatos mais elaborados na escrita de uma história oficial do estado.A expressão "Ceará - Terra da Luz", um dos principais epitetos construídos acerca de uma 'identidade' local, surge a partir daí, sendo apropriada na contemporaneidade com fins mercadológicos ligados ao turismo local"


E aí com este tipo de folder nós temos a resposta porque é que o Museu do Ceará anda sempre mal das pernas financeiramente, porque o Governo Cid Gomes prefere enviar gordas verbas para o Porto de Pecem e para os megaprojetos como a Siderúrgica e a Refinaria, do que pagar em dia o salário dos monitores do Museu do Ceará.Tudo por um motivo simples:o Museu do Ceará incomoda.A história local incomoda.A memória incomoda. Ficar escarafuçando os "feitos" dos poderosos do passado incomoda os poderosos do presente.


E aí vemos os funcionários, bolsistas do Museu fazendo heroicamente esse seminário, contando com a cara e coragem e contando com um pouco de dinheiro que entra da venda dos livros editados pelo Museu do Ceará, ainda da gestão passada do Museu.Se não fosse a venda dos livros na portaria do Museu ficaria inviabilizado coisas simples como tirar um xerox, comprar uma mídia que vai ser utilizada pelo palestrante na mesa-redonda no Datashow, comprar uma água, entre outras coisas.Ou seja, eis a política cultural do Governo Cid Gomes:o Museu do Ceará de pires na mão. Enquanto o Porto do Pecem que lesou vilas de pescadores com todas as verbas.


Participei como ouvinte da mesa-redonda: Herança cultural africana no Ceará.Nela o professor Lino de Ogum fez uma comunicação interessante sobre os falares afro, usando sua experiência como homem de letras e entrando em considerações lingüísticos-filológicas sobre a língua Banto, a etnia negra que mais colonizou o Ceará, ainda que ele, por ser de um ilê keto tenha falado um pouco do tronco lingüístico yorubá.Foi muito interessante a comunicação dele, porque deu a oportunidade das pessoas presente perceberem que o povão fala muito banto e yorubá sem saber.


Na comunicação de Cláudio Correia (presidente do Maracatu Vozes D'Africa) surgiu um mal-estar geral, pois ele enunciou explicitamente que o indígena é preguiçoso e o negro trabalhador.Eu como tento ser compreensivo sempre, acabei entendendoo o porquê dessa representação tão negativa do indígena e tão utilitarista da figura do negro.

O homem é folclorista e o que os folcloristas brasileiros mais lêem é uma farta bibliografia da década de 20 e 30 com franca orientação nazi-facista.Ou seja, falo do cearense Gustavo Barroso e do potiguar Câmara Cascudo, que como relata a historiografia do anarquista Edgar Rodrigues, assinaram o manifesto fascista - integralista daqueles anos.Todos eles embevecidos pelas idéias autoritárias de Plínio Salgado e do chamado Verde-Amarelismo em torno da revista Anta e outros periódicos que se opunham ao modernismo de cunho nativista e anárquico de Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Raul Bopp.


O Brasil construído por esses homens integralistas aponta para a direção da fala do Cláudio Correia: um Brasil feito pelo índio, pelo negro e pelo colonizador português, mas em que o índio e o negro tem de saber o seu lugar: o lugar da submissão, o lugar da invisibilidade social. O índio para ser aceito e o negro para ser aceito terá de renunciar as suas ancestralidades e assumir os valores do branco europeu.


Até o cearense Gerardo de Mello Mourão caiu nessa esparela integralista e quando vivo cantava loas ao integralismo, a Mussolini e a todos os ditadores da época.


A comunicação do Prof. Dr. Gerardo Vasconcelos da Faculdade de Educação foi bem interessante e tentou revelar as relações entre a combatividade da população negra através da arte da capoeira.Inclusive toda a cooptação mercadológica da capoeira com a criação da luta regional.O interessante foi a recuperação de uma figura baiana, um capoeirista negro chamado Besouro, um verdadeiro "Robin-hood" da época: amado pelo povão, odiado pelos poderosos e pela polícia. E que acabou morrendo num leito da Santa casa de misericórdia da Bahia se esvaindo em sangue e sem atenção nenhum dos profissionais de saúde, por ordem dos poderosos locais.


A comunicação de Armando Leão (coordenador do GCAP - Grupo de Capoeira Angola Pelourinho) foi boa, porque eles mostrou como foi seu percurso de capoeirista vindo do Rio de Janeiro e chegando numa cidade e num estado que diz que não há população negra.E que a capoeira daqui é caceteira. E a dificuldade de difundir uma capoeira que não é seduzida pelo mercado e nem por uma necessidade cearense dos homens andarem se amostrando e arrotando virilidade, masculinidade e valentia à toa.Enquanto os valores da capoeira angola são outros: se baseiam no respeito, na solidariedade e no espírito comunitário africano.


Foi interessante ouvir o relato de experiência de Mãe Valéria de Logum-edé do Ilê Asé Omo Isé, (Memorial do Candomblé no Ceará) e Mãe Ziná da Tenda Senhores de Ogum, uma sacerdotisa da umbanda. Cada uma revelaram suas representações de como entendem a africanidade dentro do cenário cearense.E chegamos a conclusão de que os cultos de matriz africano-indígena são relegados à uma marginalidade social.


A comunicação de Oswald Barroso, teatrólogo e pesquisador, foi muito rica.Através de fotos, o pesquisador passeou pelas máscaras africanas e sua repercussão no artesanato do Ceará, revelando através de um estudo comparativo que as danças dos Irmãos Aniceto se parecem com o que é feito na costa africana.O Bumba-meu-boi cearense de brinquedo, papelão e tecido em muito se parece com a relação do povo africano nas suas brincadeiras de terreiro com bois de verdade, mostrando a marca indelével da pecuária nos dois povos.


O seminário foi uma oportunidade de vermos a relação que há entre África e Ceará e pelo que percebemos na fala de cada palestrante a aproximação é muito maior do que se imagina.

OS TARÔS DE ORIXÁS NO MERCADO EDITORIAL BRASILEIRO





OS TARÔS DE ORIXÁ NO MERCADO EDITORIAL BRASILEIRO


O propósito deste estudo é esmiuçar e confrontar a constituição estética e ideológica de trés tarôs de orixá existentes no mercado editorial brasileiro.

Os tarôs que iremos examinar são respectivamente o da Editora Pallas, o da Artha Editora e o da Pensamento/Llewellyn editora.

Para dar conta das analises estéticas lemos teóricos das artes plásticas como Fayga Ostrower, E. H. Gumbrich e Michael Archer.

Para dar conta dos aspectos sócio-religiosos envolvidos no problema lemos antropólogos da religião
como Mircia Eliade, Joseph Campbell, Reginaldo Prandi, Pierre Verger, Roger Bastide, Raul Lody, Ronilda Yakemi Ribeiro, entre outros.

PARA QUE SERVE UM TARÔ DE ORIXÁ?

O leitor que parou para ler esse texto deve ter algum grau de iniciação ou no mundo dos orixás, nkices e voduns ou no mundo dos arcanos do tarô.

Mas caso não tenha nenhuma noção do que faz um baralho de tarô irei tentar explicar.

O tarô é um oráculo que serve para se pedir conselhos em situações problemas. Basicamente é isto.
Contudo, o leitor deve questionar: mas baseado em que coisas esse “oráculo” aconselha?

A resposta para essa questão não é simples, pois o Tarô, ou para ser mais preciso, os tarôs são baseados no universo de referencia de seu autor.

Pois os tarôs modernos tem autoria reconhecida em cartório. Ja os tarôs mais antigos tem autoria anônima ou atribuída.

O TARÔ DA EDITORA PALLAS

O primeiro tarô de orixá que tivemos acesso foi o de Eneida Duarte Gaspar – 3ª edição – Rio de Janeiro: Pallas, 2006.Este tarô foi ilustrado por Walter Tunis.

Ao olharmos as belas cartas do tarô da Pallas, constatamos que apesar de se chamar tarô dos orixás, o que vincularia o tarô imediatamente ao universo do candomblés de rito queto/nagô, vê-se entre os arcanos maiores, por exemplo, o arcano zero com uma divindade da quimbanda, Zé Pelintra.

Os caboclos são o arcano 21 e os pretos-velhos são o arcano 20.Revelando que, utilizando divindades do panteão umbandista, Eneida Gaspar afro-brasileirou o seu tarô. Entretanto arcanos menores ela preferiu africanizar o taro, como se pode perceber nas filigranas do naipe de ouros consagrando a revelar os fundamentos dos noves oruns (céu/alem) dos iorubas nigerianos, enquanto que no Brasil o candomblé dividiu o universo em apenas orum e aye – a terra, simplificando o referencial devido a influencia do céu e inferno católicos.

Devemos questionar o estranho critério que levou a autora a associar o arcano 15- O Diabo a Exu. Os estudiosos das religiões afro-brasileiras sabem que o no Brasil o orixá Exu foi egunizado - ou ate poderíamos dizer que foi quiumbanizado. De orixá moleque, ambíguo, travesso entre o bem e o mal relativos, o compadre se tornou o representante do mal absoluto segundo os pastores eletrônicos, tipo Edir Macedo e o Silas Malafaia.

Então não sei se faz bem a Exu associa-lo ao Diabo bíblico. Ja que em nada se parecem. Enquantoooo o Diabo bíblico, segundo o livro Satã: uma biografia de Henry Ansgar Kelly da Editora Globo, seria uma espécie de funcionári detestável do governo despótico do Deus de Moisés; Exu, ao contrário deste não teria função de tentar nem condenar ningué, já que pós-mortem na cultura iorubana não é desejadonem ansiado. Morrer nas religiões tradicionais africanas é um período rápido, o bom mesmo é estar vivo e participando de tudo o que a vida oferece de bom. Não há condenação eterna no além iorubano, pois depois de um certo tempo os mortos voltam a encarnar nos descendentes de seu clã. Maiores detalhes conferir a obra da antropóloga Ronilda Yakemi Ribeiro – Alma Africana no Brasil: os iorubás.

Deste modo, penso que Eneida Gaspar apenas repetiu o senso comum. Ja Zolrak do Tarô Sagrado dos Orixás – 7ª edição – São Paulo: Pensamento, 2008 - optou por outro caminho. No seu tarô há a carta do Diabo, associada à luxuria, negatividade, magia negra, vampirismo energético como na maioria dos tarôs conhecidos e há a carta de Exu, associada à virilidade masculina.

No arcano 15 de Eneida Gaspar ela repetiu o cânone consagrado aos arcanos 15 tradicionais. Hà um figura maior que representa o Diabo, ou pelo menos, um exu rei, coroado e de tridente (como manda a quimbanda), com uma capa vermelha e preta que se transmuta em asas de morcego. Numa das mãos segura o tridente mencionado, que a tradição cristã tirou do Deus Netuno da mitologia grega. Na outra mão segura uma garrafa de aguardente, simbolizando os vícios alcoólicos. E como nas cartas tradicionais há mais duas figuras como que acorrentadas. Uma mulata acorrentada e com os seios de fora levanta a saia vermelha e mostra o corpo nu para o mulato. Um mulato acorrentado a um fogareiro revela ansiedade. Ambos, o casal de mulatos estão dentro de pequenos círculos mágicos cheios de chamas amarelas. A chama do fogareiro também é amarela que simboliza intelectualidade ativa. Na carta predomina o vermelho o que revela o dinamismo agônico do sexo e da boêmia. O semblante da testa franzida do Exu coroado revela malícia e picardia. Já a mulata esboça uma gargalhada o que a deve associar a pomba-gira da quimbanda. O mulato está de costas e não podemos ver seu semblante, mas seu rosto esta voltado para as chamas do fogareiro de barro do qual saem correntes que o prendem pelo abdome, justamente o chacra das paixões grosseiras no corpo astral humano.

No tarô da editora Pensamento não há arcano 15, mas há o arcano do Diabo. O tarô da Pensamento foi ilustrado por Durkan. E a carta do Diabo tem um grafismo bem pobre. Nao há a simetria do desenho de Walter Tunia do tarô lançado pela Editora Pallas. Sendo assim, o resultado ficou próximo de uma caricatura escolar muito mal desenhada. Ou talvez tenha sido essa a intenção do artista-plástico: representar o Diabo como algo grotesco, tosco, disforme e mal acabado.

Realmente o mito do Diabo cristão foi uma das ideias mais idiotas perpretadass por Papas e pastores. Dividir o universo em apenas duas metades antagônicas: de um lado Deus (o bem absoluto) e de outro o Diabo (o mal absoluto).É realmente uma forma de empobrecer um universo que cabe muito mais possibilidades e cores.

Dos tarôs analisados, o mais surpreendentemente africanizado e o da editora Artha. Este tarô é de autoria de Conceiçao Forty, foi ilustrado por Cláudia Krindges e teve consultoria de Ivoni Aguiar Tacques.

Nele não há a carta do Diabo, mas há o arcano 15 representado por Exu orixá. Nele vemos um negro descalço, vestido de preto e vermelho, segurando um enorme ogó, bastão de madeira com a cabeça em formato de pênis.

Na carta o negro usa um saiote vermelho e negro e tem os braços cheios de brajás, fileiras de búzios.

Nas lendas africanas, como nas narrativas bíblicas, não há muita precisão historica.Exu ora aparece como um orixá primordial, sendo representado pelo fogo da brasa no inicio da criação, ora aparece como uma especie de garoto de recados que trabalha sob pagamento e que mora nas ruas africanas.

No jogo de búzios dos candomblés brasileiros Exu é associado ao primeiro odu, quando um búzio está aberto e os 15 demais caíram fechados no tabuleiro e chama-se Okanran. Na maioria dos manuais de Jogo de Búzios que consultamos é quase sempre um odu perigoso e que precisa de muitos cuidados quando cai para um consulente.

Talvez até os religiosos dos culto afro-brasileiros que escreveram os manuais do Jogo de búzios existentes no mercado editorial tenham absorvido as supertições cristãs de satanizar Exu.

Por isso, dos tarôs de orixá analisados, realmente o desenhado por Cláudia Krindges da Editora Artha é o que mais se aproxima do que é enunciado pelos contos míticos nigerianos.

Cabe perguntar por que os missionários cristãos ao chegarem nos vilarejos africanos e verem fetiches consagrados a Exu, o associaram ao Diabo cristão. Para quem nunca viu, os africanos esculpem enormes pênis eretos no barro ou na madeira nos assentamentos consagrados a Exu.
O africano não-cristao ou não-islamico tem um relacionamento natural com a sexualidade e ao invez de sacrificá-la e reprimila como manda Moises, eles a ressaltam.Pois enquanto a religião de Moises e seus derivados são pautados pela pulsao de morte – basta ver o simbolo do cristianismo: um moribundo na cruz – as religioes tradicionais africanas (das quais o candomble brasileiro herdou inúmeras coisas) são pautadas pela pulsão de vida – basta ver a ginga da capoeira e alegria do samba.

Tudo que é vivo assusta o Cristão, principalmente quando o vivo é mulher ou gay.Tudo o que se afirma em contraposiçao ao macho branco, ocidental, patriarcal assusta o Malafaia.

Para o cristao o corpo é sujo e fonte de pecado, a alma é que deve ser valorizada.Já na tradição iorubá o corpo (ara) é celebrado porque é com ele que vivemos e respiramos e não há conceito de pecado, pois a religiao tradicional africana não lida com culpa.

COMO OS PRATICANTES DE CANDOMBLÈ LIDAM COM O TARÔ DOS ORIXÁS?

Não fizemos uma rigorosa pesquisa estatística para responder essa pergunta.Mas numa pequena amostragem populacional (três informantes) percebemos que o tarô dos orixas não desperta interesse por parte dos adeptos de candomble.Os três informantes nunca tiveram acesso ao tarô dos orixás ou nem sabiam que existia no mercado editorial brasileiro esse tipo de oráculo.

Um ogan disse que nós deveíiamos ter muito cuidado ao lidar com tarô porque segundo ele, quem responde no tarô são eguns (desencarnados).E revelou não ter interesse nenhum em jogar o tarô.Ele, como os outros dois informantes, preferem obter respostas de orixàs, diretamente pelo método tradicional no candomble brasileiro: a consulta aos búzios (meridilogun).

O meridilogun é uma adaptação brasileira do opele ifa, um oráculo nigeriano.Enquanto o opele ifa é mais complexo: nele respondendo quase 400 orixas, na versão brasileira só respondem os 16 orixás principais cultuados no Brasil.

Entao cabe perguntar: quem se interessa em comprar tarô de orixá?E a resposta é uma hipotese: os tarólogos. Principalmente eles, já que quem é estudioso de tarô geralmente não consegue se conformar em ter so um tipo de tarô.

Mas suponho tambem que devido a qualidade excepcional dos tarôs analisados eles acabem despertanto o interesse de curiosos que vão as livrarias e procuram o setor de religioes afro-brasileiras.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O propósito desse estudo não foi subsituir a consulta aos proprios tarôs analisados, mas de ser uma reflexão sobre a importância de ver o tarô como uma fonte iconográfica interessante sobre o universo das religiões afro-brasileiras, da diáspora negra, assim como, ser uma forma interesante de mergulhar na chamada África continental.

COMO O DESTINO É ENCARADO PELA CIÊNCIA, PELA FILOSOFIA, PELA CULTURA IORUBÁ E PELA ASTROLOGIA BABILÔNICA






“DESTINO (gr. £ÍLIAPLIÉVR|; lat. Fatum; in. Destiny,
fr. Destin; ai. Geschick, Schicksal; it. Destino).
Ação necessitante que a ordem do mundo
exerce sobre cada um de seus seres singulares.
Na sua formulação tradicional, esse conceito
implica: Iª necessidade, quase sempre desconhecida
e por isso cega, que domina cada
indivíduo do mundo enquanto parte da ordem
total; 2ª adaptação perfeita de cada indivíduo
ao seu lugar, ao seu papel ou à sua
função no mundo, visto que, como engrenagem
da ordem total, cada ser efeito para aquilo
que faz.
0 conceito de D. é antiquíssimo e bastante
difundido, porque compartilhado por todas as
filosofias que, de algum modo, admitem uma
ordem necessária do mundo. Aqui só faremos
alusão às que designam explicitamente essa
ordem com o termo em questão. O D. é noção
dominante na filosofia estóica. Crisipo, Posidônio,
Zenão, Boeto o reconheceram como a
"causa necessária" de tudo ou a "razão" pela
qual o mundo é dirigido. Identificavam-no com
a providência (DiÓG. L., VII, 149). Os estóicos
latinos retomam essa noção e apontam seus reflexos
morais (SÊNECA, Natur. quaest., II, 36, 45;
MARCO AURÉLIO, Memórias, IX, 15). Segundo
Plotino, ao D. que domina todas as coisas exteriores
só escapa a alma que toma como guia
"a razão pura e impassível que lhe pertence de
pleno direito", que haure em si, e não no exterior,
o princípio de sua própria ação (Enn., III,
1,9). Para Plotino, a providência é uma só: nas
coisas inferiores chama-se D.; nas superiores,
providência {ibid., III, 3, 5). De modo análogo,
para Boécio (que com a Consolação da filosofia
transmitia esses problemas à Escolástica latina),
D. e providência só se distinguem porque
a providência é a ordem do mundo vista pela
inteligência divina e o D. é essa mesma ordem
desdobrada no tempo. Mas no fundo a ordem
do D. depende da providência (Phil. cons., IV,
6,10). O livre-arbítrio humano subtrai-se da providência
e do D. só porque as ações a que dá
origem se incluem, exatamente em sua liberdade,
na ordem do D. (Ibid., V, 6). Essa solução
deveria inspirar todas as soluções análogas da
Escolástica, que conserva o mesmo conceito
de D. e de providência (cf., p. ex., S. TOMÁS, S.
Th., I, q. 116, a. 2). Em sua Teodicéia, Leibniz
repropunha a mesma solução (Théod., I, § 62).
Na filosofia do Romantismo, enquanto Schopenhauer
considera o D. como ação determinante,
no homem e na história, da Vontade
de vida na sua natureza dilacerante e dolorosa
(Die Welt, II, cap. 38), Hegel limita o D. à necessidade
mecânica. "À potência", diz ele,
"como universalidade objetiva e violência contra
o objeto, dá-se o nome de D.: conceito que
se inclui no mecanicismo porquanto o D. é
chamado de cego, ou seja, sua universalidade
objetiva não é conhecida pelo sujeito em sua
propriedade ou particularidade específica"
(WissenschqftderLogik, III, II, 1, B, b; trad. it.,
III, p. 199). Nesse sentido, o D. é a própria necessidade
racional do mundo, mas enquanto
ignorante de si mesma e, portanto, "cega". Mas
durante esse mesmo período, do ponto de vista
de necessidade "puramente racional", tanto
interpretada como dialética, quanto como determinismo
causal, a palavra D. começou a parecer
fantástica ou mítica demais para designar
essa necessidade. Foi então abandonada e
substituída por termos que exprimem a natureza
objetiva e causal da necessidade, como p.
ex. necessidade, dialética, determinismo, causalidade;
no domínio da ciência, é regida pelas
"leis eternas e imutáveis da natureza".
Quando a palavra D. volta, em Nietzsche e
no existencialismo alemão, tem novo significado:
exprime a aceitação e a voliçâo da necessidade,
o amorfati. Nietzsche foi o primeiro a
expressar esse conceito tão característico de
certa tendência da filosofia contemporânea. Ele
interpreta a necessidade do devir cósmico
como vontade de reafirmação: desde a eternidade
o mundo aceita-se e quer-se a si mesmo,
por isso repete-se eternamente. Mas o homem
deve fazer algo mais que aceitar esse pensamento:
deve ele próprio prometer-se ao anel
dos anéis: "É preciso fazer o voto do retorno de
si mesmo com o anel da eterna bênção de si e
da eterna afirmação de si; é preciso atingir a
vontade de querer retrospectivamente tudo
o que aconteceu, de querer para a frente tudo
o que acontecerá" (Wille zurMacht, ed. 1901,
§ 385). Esse é o amorfati, no qual Nietzsche vê
a "fórmula da grandeza do homem". Heidegger
não fez senão exprimir o mesmo conceito ao
falar do D. como decisão autêntica do homem.
D. é a decisão de retornar a si mesmo, de transmitir-
se a si mesmo e de assumir a herança das
possibilidades passadas. "A repetição é a transmissão
explícita, ou seja, o retorno a possibilidades
do ser-aí que já foram" (Seín und Zeit,
§ 74). Nesse sentido, o D. é "a historicidade
autêntica": consiste em escolher o que já foi
escolhido, em projetar o que já foi projetado,
em reapresentar para o futuro possibilidades
que já foram apresentadas. É, em outros termos,
a vontade da repetição, o reconhecimento
e a aceitação da necessidade. Esse conceito
volta em Jaspers, que, no entanto, expressa-o
com referência à identidade estabelecida entre
o eu e sua situação no mundo. O D. é a aceitação
dessa identidade: "Amo-o como me amo
porque só nele estou cônscio de meu existir".
Aqui também o D. nada mais é que a aceitação
e o reconhecimento da própria natureza da
necessidade, que, para Jaspers, é a identidade do
homem com sua situação (Phil, II, p. 218 ss.).
Essa última noção de D. exprime bem certas
tendências da filosofia contemporânea. Na origem
de sua longa tradição, essa noção implicava:
l9 uma ordem total que age sobre o indivíduo,
determinando-o; 2- o indivíduo não se
apercebe necessariamente da ordem total nem
de sua força necessitante: o D. é cego. O conceito
contemporâneo eliminou ambas as características.
Para ele: ls a determinação necessitante
não é a de uma ordem (nem mesmo
para Nietzsche), mas a de uma situação, a repetição;
e 2S o D. não é cego porque é o reconhecimento
e a aceitação deliberada da situação
necessitante.”

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. - 5ª edição – Tradução: Ivone Castilho Benedetti – São Paulo: Martins Fontes, 2007.



Este estudo é muito complexo porque pretende dar conta do problema conceitual do ‘Destino’ nas ciências, na Filosofia, na sabedoria dos povos iorubanos da África e na sabedoria dos inúmeros povos que desenvolveram a Astrologia (dos mesopotâmicos aos gregos em particular). E isso pode tornar o texto extremamente denso ao tentar articular conceituações tão díspares: ora antagônicas (como no caso do confronto entre a Astronomia moderna e a Astrologia babilônica antiga) e ora complementares – como no caso dos saberes enunciados por babalawos iorubanos africanos e os saberes astrológicos. Esse é o risco que corremos e então vamos a eles.

Este estudo surgiu por acaso quando lia a obra “Astrologia do Destino” da psicoterapeuta junguiana e astróloga Liz Greene – 10 ª edição – Tradução: Carmen Youssef – São Paulo: Cultrix Pensamento, 1995.

Quando li a exaustiva introdução, tive um insight de produzir um estudo filosófico e epistemológico sobre a questão do Destino.

A principal pergunta de Liz Greene é: “Somos predestinados ou livres?”E é com essa pergunta que iremos nortear toda a nossa investigação através dos diversos campos do saber oficial e não oficial citados.

Para não ficar inteiramente à mercê das especulações da psicoterapeuta junguiana e astróloga, checamos o parecer contrário às pretensões astrológicas enunciado pelo astrônomo Carlos Alexandre Wuensche no dossiê de seis páginas da Revista Ciência Hoje intitulado Astronomia versus Astrologia – v.43, Nº. 256, 2009.

Para a autora de “Saturno: un nuevo enfoque de un viejo diablo” (Ediciones Obelisco) o Destino é a moira, como entendida pelos gregos antigos. E a autora salienta que o filósofo ateu, Bertrand Russell, considera o fatalismo e seus inevitáveis ramos criativos – as artes mânticas ou divinatórias – como uma nódoa produzida por Pitágoras e Platão sobre o pensamento puro e racional, uma mancha que ofuscou o brilho da construção, não fosse isso, da mente clássica grega.

O conceito de moira pressupõe um cosmo ordenado, interligado e as astrologia por sua vez seria produto deste tipo de cosmo. Porém tal concepção é refutada pela filosofia moderna representada por Bertrand Russell.

A teologia cristã medieval renegou o conceito de moira. Pois para a escolástica Destino é coisa pagã. Moira, como a Deusa do destino, representava para essa teologia um insulto a supremacia divina. O argumento teológico trocou a Deusa do Destino, a Moira, pela Providência Divina. Os calvinistas, por sua vez, acreditavam na salvação predestinada aos eleitos.

Os mais científicos preferem à Moira, ao Destino, o conceito de ‘lei natural’. Entretanto, lei natural na concepção de Anaximandro e da escola jônica - que Bertrand Russell simpatiza - é elevada à condição de divindade.

A moira é uma força moral, ninguém precisa fingir, contudo, que ela é exclusivamente benévola, ou que tivesse alguma consideração por interesses paroquianos ou pelos anseios do gênero humano. Os gregos não lhe atribuíam nenhum mérito de previsão, desígnio ou finalidade, pois esses méritos pertencem aos seres humanos e supostamente aos deuses humanizados.

Moira é a força cega e automática que permite que seus propósitos secundários e desejos ajam livremente dentro de suas próprias e legítimas esferas, porém reage com certa turbulência contra eles quando atravessam suas fronteiras.

Anaximandro e seus companheiros imaginavam o universo como que dividido, dentro de um plano geral, em províncias compartimentadas ou esferas de poder. O universo era originalmente uma massa primária e indiferenciada; quando os quatro elementos surgiram eles receberam seu quinhão não de uma deusa personificada, mas do eterno movimento no interior do cosmo, o que era considerado não menos divino.

A psicologia inventou também uma terminologia mais atraente para lidar com a questão do Destino. Ela fala da predisposição hereditária, de padrões de condicionamento, de complexos e de arquétipos.


COSMO OU UNIVERSO?

“Na astrologia, o ser humano pensa que o firmamento foi feito para ele”.
Friedrich Nietzsche em “Humano, Demasiado Humano”.

Uma boa pergunta que podemos fazer para nos situar em relação à conceituação de Destino é saber: onde estamos?

Estamos num cosmos ou num universo? O cosmos é assunto das religiões, o universo é assunto das ciências. Cosmos pressupõe um conjunto ordenado, interligado e criado por uma potência fora dele. Universo pressupõe um todo indiferente à experiência humana e sem intencionalidade transcendente.

O Cosmos é transcendente, o universo é imanente. A ciência estuda o funcionamento do espaço, a religião estuda como ir para o Céu.

Eu particularmente fui ateu, mas atualmente eu sou o que se poderia chamar na fraseologia eliadeana de sacralista. Embora negando a criação do universo ex-nihilo. Para mim o universo se auto-originou de estruturas bem simples (um ponto geométrico que explodiu em algum momento) até chegar em estruturas mais complexas (estrelas, planetas, rochas...). O universo não teve e não tem intencionalidade até hoje. Também não há um Deus pessoal a nos policiar, sondar, controlar, comandar, fiscalizar.Mas há o sagrado, ainda que seja um sagrado naturalizado na physis.

Tentarei explicar minha posição.Embora tendo nascido e se criado no Ocidente, sempre fui descotente com o sistema simbólico judaico-cristão do Deus antropomórfico.Sendo assim, quando nos aprofundamos na concepção do extremo oriente de Deus ou no aspecto não-antropomórfico do conceito de Òludumaré do território iorubá na África ocidental , ou seja, Deus como a realidade suprema, o imponderável, o inefável; cujo conceito de Brahman procura ser uma definição aproximada no hinduísmo.Deus como totalidade de tudo o que existe no universo e todos os seus componentes (SENNA, Ronaldo.TITA- SOUZA, Maria José de. A Remissão de Lúcifer: O resgate e a ressignificação em diferentes contextos afro-brasileiros – Editora – UEFS – 2002)...aí nesse caso, eu passo a acreditar em Deus, mas só nesse caso.Só nessa acepção.



Desse modo, como não somos policiados por um suposto Deus pessoal a nos bisbilhotar de sua prefeitura nos confins do Universo, então penso que somos (o deveríamos ser) inteiramente livres para escolher o que bem entendêssemos nas nossas vidas.

Sou um sacralista porque eu dou atenção aos babalaôs e a sua forma particular de entender a noção de Destino. Vamos a ela, portanto.

ODU, O DESTINO NA CULTURA AFRICANA

Segundo o sociólogo Reginaldo Prandi no seu “Os príncipes do destino: histórias da mitologia afro-brasileira” – 2ª edição – São Paulo: Cosac Naify, 2005 – o tradicional povo ioruba acreditava que tudo na vida se repete. Assim, o que acontece e acontecerá na vida de alguém já aconteceu muito antes à outra pessoa. Saber as histórias já acontecidas, as histórias do passado, significava para eles saber o que vai acontecer na vida daqueles que vivem o presente.

Então qual o fundamento de se procurar um babalaô e consultar o jogo de búzios? Segundo Ronilda Yakemi Ribeiro em seu “Alma Africana no Brasil: os iorubas” - São Paulo: Editora Oduduwa, 1996. Cada ser criado escolhe livremente o “Ori” e o “Odu” – signo regente de seu destino. Desse modo, o babalaô, o olhador do búzio, poderá dizer qual o odu do indivíduo que está consultando.

A narrativa mítica diz que Oxalá e Ajalá são entidades modeladoras dos ‘oris’. Ajalá, embora notável em sua habilidade, não é muito responsável, e por isso, muitas vezes modela cabeças defeituosas: pode esquecer de colocar alguns acabamentos ou detalhes necessários, como pode, ao levá-las ao forno para queimar, deixá-las por tempo demasiado ou insuficiente. Tais cabeças tornam-se assim potencialmente fracas, incapazes de empreender a longa jornada para a terra, sem prejuízos. Se, desafortunadamente, um homem escolhe uma dessas cabeças mal modeladas, estará destinado a fracassar na vida. Durante sua jornada para a terra, a cabeça que permaneceu por tempo insuficiente ou demasiado no forno, poderá não resistir à ação de uma chuva forte e chegará mais danificada ainda. Todo o esforço empreendido para obter sucesso na vida terrena terá grande parte de seus efeitos desviada para reparar tais estragos. Pelo contrário, um homem tem a sorte de escolher uma das cabeças realmente boas, tornar-se-á próspero e bem sucedido na terra, uma vez que sua cabeça chega intacta e seus esforços redundam em construção real de tudo aquilo que se proponha a realizar.

Assim a consulta aos búzios é basicamente para saber sobre nossa cabeça (ori) ou a cabeça de outrem. Pode um homem conhecer as potencialidades da própria cabeça ou de outrem? A resposta do livro de Ronilda Yakemi Ribeiro vem em forma de outra narrativa mítica. Ao atravessar o portal que conduz do céu a terra, o porteiro do céu ( Onibode Orun) pede ao homem que declare seu destino. Este é então selado e, embora a lembrança disso no homem se apague, Ori retém integralmente a memória de tudo. Baseado nesse conhecimento guia seus passos na terra. Segundo o mito, a única testemunha desse encontro entre Onibode Orun e Ori é Orumilá, uma das divindades primordiais. Por isso Orumilá conhece todos os destinos humanos e procura ajudar os homens a trilhar seus verdadeiros caminhos. Nos momentos de crise, a consulta ao oráculo de Ifá permite acesso a instruções a respeito dos procedimentos desejáveis, sendo considerados bons procedimentos os que não entram em desacordo com os propósitos do ori.

O destino ou Ipin ori – sina do ori – pode sofrer alterações em decorrência de pessoas más chamadas omo araye – filhos do mundo, também chamadas aye – o mundo ou ainda, elenini – implacáveis (amargos, sádicos, inexoráveis) inimigos das pessoas. Entre estes se encontram as aje – bruxas, ou os oso – feiticeiros, os envenenadores e todos aqueles que se dedicam a práticas malignas com o intuito de estragar qualquer oportunidade de sucesso humano.

O destino também pode ser afetado, de modo adverso, pelo caráter da própria pessoa. Um bom destino deve ser sustentado por um bom caráter. Este é como uma divindade: se bem cultuado concede sua proteção. Assim, o destino humano pode ser arruinado pela ação do homem.

E como é o mecanismo do oráculo de Ifá? O recurso divinatório de Ifá, associado ao culto de Orumilá, é o mais desenvolvido dos sistemas divinatórios iorubás. Fazendo uso do obi de quatro partes, do opele, de areia, água, búzios, ikin, etc. Ao ser feita a consulta ao oráculo de Ifá, a queda dos dezesseis frutos de palmeira chamados ikin ou do opele, a corrente divinatória, define determinada configuração. De 16 figuras básicas e 256 derivadas chamadas Odu, decorrem 4096 variantes possíveis, cada qual com seu nome. A cada configuração corresponde uma série de parábolas, significativamente coincidentes (sincrônicas) com a circunstância existencial do consulente. A conduta do(s) herói(s) da parábola sugere o procedimento adequado para a superação da crise e realização do próprio destino.

Reginaldo Prandi, no seu “Segredos Guardados: orixás na alma brasileira” – São Paulo: Companhia das Letras, 2005 – nos informa que Na África Tradicional Iorubá, dias depois do nascimento da criança iorubá, ocorre a cerimônia na qual se dá o nome ao nascido, quando o babalaô consulta o oráculo para desvendar a origem da criança. É quando se descobre, por exemplo, se ela é um ente querido renascido. Os nomes iorubas sempre designam a origem mítica da pessoa, que pode se referir ao orixá pessoal, geralmente o da família, determinado patrilinearmente, ou à condição em que se deu o nascimento, tipo de gestação e parto, sua posição na sequência dos irmãos, quando se trata, por exemplo, daquele que nasce depois dos gêmeos, a própria condição de ‘abicu’ e assim por diante. A partir do momento em que se dá um nome à criança, desencadeia-se uma sucessão de ritos de passagem associados não só aos papéis sociais, como a entrada na idade adulta e o casamento, mas também à própria construção da pessoa, que se dá através da integração, em diversos momentos da vida, dos múltiplos componentes do espírito. Com a morte, os ritos são refeitos, agora com intenção de liberar essas unidades espirituais, de modo a levar cada uma ao destino certo, restituindo, assim, o equilíbrio rompido com a morte.

O DESTINO NA ASTROLOGIA E NA ASTRONOMIA

“ Há alguma evidência científica de que os astros podem revelar aspectos ocultos de nossa personalidade ou influenciar nosso comportamento, cotidiano e destino? A astrologia pode ser considerada uma ciência, no sentido moderno dessa palavra? É possível testar, sob condições controladas, as previsões feitas por horóscopos e mapas astrais? Se sim, o que dizem os resultados desses experimentos?”

Carlos Alexandre Wuensche

“O ato de olhar o céu e buscar simbolismos e associações é algo intrínseco ao ser humano e ocorre há milênios. Essa busca vem do tempo em que pouco se conhecia sobre o comportamento da natureza e no qual o animismo era uma tentativa de compreender e domesticar o desconhecido. Muitas culturas antigas têm registros sistemáticos da esfera celeste que remontam a dois mil anos antes da era cristã. Desde essa época, padrões de repetição de movimento e agrupamento de astros já eram conhecidos, levando à separação entre estrelas e planetas (‘astros errantes’) – na época, eram conhecidos apenas Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. A ideia de constelações também surgiu naturalmente, sendo que a idealização do que era ‘visto’ no agrupamento de estrelas sempre sofreu uma forte influência da mitologia local. Porém, ainda hoje, um fato acontece com vários de nós, astrônomos profissionais ou amadores: basta comentar sobre nossa profissão ou interesse pelos céus e rapidamente vem a pergunta: “E se eu te disser que sou Sagitário com ascendente em Touro? “É surpreendente que, mesmo neste início de século, um número enorme de pessoas ainda leva a sério uma crença que remonta a mais de dois milênios: a de que os astros influenciam o cotidiano, o comportamento e o destino das pessoas.”

Desse modo, o astrônomo responsável pela Coordenação de Ciências Espaciais e Atmosféricas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais inicia o seu Dossiê “Astronomia versus Astrologia”.

Astronomia e astrologia são palavras derivadas do grego. Nessa língua, astron significa ‘estrela’ e o sufixo 'nomos' (escrito, em português, como ‘nomia’), ‘regra’ ou ‘lei’. A astronomia é a ciência que trata da constituição, posição relativa, movimento e, mais recentemente, dos processos físicos que ocorrem nos astros (neste último caso, sendo denominada astrofísica, cujo nascimento se deu no século 19). Por sua vez, a astrologia aglutina astron e logos (em português, ‘logia’), que significa ‘palavra’ e que pode ser entendido como ‘estudo’ ou ‘disciplina’. De forma geral, a astrologia trata do estudo da influência dos astros, especialmente dos signos do zodíaco, no destino e no comportamento humano. Os fundamentos da astrologia foram estabelecidos pelos babilônios, por volta de 1500 a.C. A origem comum da astronomia e da astrologia remonta a essa época e, apesar de ambas se basearem no estudo dos astros, suas versões modernas são inteiramente distintas.

A astrologia baseia suas previsões no movimento relativo dos planetas do sistema solar, não fazendo uso da informação trazida pela radiação eletromagnética (ondas de rádio, infravermelho, luz visível, raios X etc.) emitida por eles. Praticantes e estudiosos da astrologia consideram-na uma linguagem simbólica, forma de arte, adivinhação ou até ciência, com capacidade de prever o futuro ou aspectos ocultos da personalidade. Os astrólogos defendem sua área de estudo com base na ideia de que a ciência moderna não entende o que eles dizem e que, mesmo sob teste, a astrologia será sempre avaliada segundo os paradigmas científicos, desconsiderando outras formas de testes e de pensamento.

São características básicas da astronomia, ser baseada em leis conhecidas da física, sendo que os resultados obtidos com base nessas leis deverão ser os mesmos para qualquer pessoa que conheça os métodos empregados no experimento, bem como as leis em questão. O estudo de astros distantes também é feito com base na radiação eletromagnética emitida por esses corpos celestes, incluindo ondas de rádio, micro-ondas, ultravioleta, raios X e raios gama. Isso permite não só a reconstrução dos processos físicos que produzem essa radiação, mas também o estudo da estrutura e do estado evolutivo do astro.

Críticos da astrologia – incluindo a própria comunidade científica –, consideram-na uma forma de pseudociência ou superstição, devido à sua incapacidade de demonstrar o que afirma, o que até agora tem sido corroborado em grande número de estudos científicos controlados. Por sua vez, astrólogos contestam testes propostos pela ciência para validar a astrologia nesse sentido. E, quando não se recusam a participar deles, rejeitam seus resultados, apesar de estes serem baseados em testes estatísticos e em leis da natureza amplamente validadas.

Portanto, como a astrologia não se enquadra no paradigma do que é entendido como ciência, ela perde o direito de reivindicar esse status quando lhe é conveniente.


Breve histórico

A observação e nomenclatura dos céus, adotadas até hoje pela civilização ocidental, remontam aos babilônios, egípcios, gregos e romanos. Pode-se dizer que a primeira grande sistematização do estudo dos céus com fins astrológicos está em Tetrabiblos, texto escrito pelo astrônomo greco-egípcio Claudius Ptolomeu, que viveu no século 2 a.C.. Essa obra, dividida em quatro livros, sistematiza e propõe explicações para o modelo geocêntrico (aquele em que a Terra é o centro do universo), defendendo-o com hipóteses que duraram cerca de 1,5 mil anos – vale ressaltar que o modelo geocêntrico é a base do princípio astrológico.

Tetrabiblos é também um tratado de astrologia, talvez o mais importante da Antiguidade. Seu ‘Livro I’ afirma que as influências dos corpos celestes são inteiramente físicas e, nos ‘Livros III’ e ‘IV’, descreve como os céus interferem nas atividades humanas (embora Ptolomeu não tenha apresentado a matemática necessária para elaborar horóscopos, desenvolvida por seus antecessores). A contrapartida astronômica de Tetrabiblos é Almagesto, também de Ptolomeu, um grande tratado sobre astronomia com 13 livros.

Na Idade Média, com sua atmosfera de intensa religiosidade, a possibilidade de fazer e verificar previsões baseadas nos astros era questionada. O padre e filósofo católico Aurélio Agostinho (354-430) – mais conhecido como Santo Agostinho – levantou o famoso problema do “fatalismo astrológico”, um arrazoado no qual argumentava que, “se o futuro já estava previsto por Deus, ou pela influência previsível dos movimentos planetários, para todos, como poderiam ser livres os humanos”? A resposta, dada por ele mesmo, apontava para a “sugestão, mas não obrigação”, de que seguir as estrelas e as orações ajuda a resistir aos desvios...

Nessa época, eram conhecidos três tipos de astrologia, descritos pelo filósofo francês Nicolas Oresme (1320-1382), crítico da astrologia e astrônomo ‘mecanicista’ da corte de Carlos V: i) a astrologia matemática (ou astronomia); ii) astrologia natural (relacionada com a física); iii) a astrologia espiritual (ligada à previsão do futuro e à elaboração de horóscopos). Na Idade Média, portanto, já era feita uma diferenciação entre a astronomia e a astrologia.

Até o final do Renascimento, a astrologia foi uma atividade essencialmente acadêmica, exercida inclusive por médicos. Por uma questão de justiça, deve ser sempre mencionado que o dinamarquês Tycho Brahe (1546-1601), o alemão Johannes Kepler (1571-1630) e o italiano Galileu Galilei (1564-1642), além de cientistas (no sentido moderno do termo), foram também competentes astrólogos nos sentidos ‘i’ e ‘ii’ do parágrafo anterior. Kepler, porém, foi um crítico ferrenho da astrologia divinatória.

No século 17, o interesse acadêmico pelo prognóstico astrológico transferiu-se para a nova medicina e para a meteorologia, e, nessa época, a astrologia saiu da academia, estimulando novamente o aparecimento do tipo de astrólogo usualmente conhecido na Antiguidade, mais dedicado às práticas divinatórias. Em linhas gerais, esse é o quadro que permanece até os dias de hoje.

Qual é a probabilidade de que 1/12 da população da Terra esteja tendo o mesmo tipo de dia? Mesmo levando em conta todos os detalhes astrológicos (ascendentes, quadraturas, oposições etc.), os horóscopos deveriam apresentar alguma semelhança, pois o signo ‘solar’ é a principal referência. Uma simples divisão mostra que, nesse caso, as mesmas previsões seriam, ainda que superficialmente, adequadas a cerca de 400 milhões de pessoas em todo o mundo, todos os dias!

Estavam errados os horóscopos feitos antes das descobertas de Urano, Netuno e Plutão, ocorridas em 1781, 1846 e 1930, respectivamente? Deveríamos refazer esses horóscopos? Além disso, existe uma associação entre nomes de planetas, personalidades mitológicas e características astrológicas, portanto há que se pensar agora como nomear e incluir a influência dos mais de 300 planetas extrassolares descobertos desde 1995.

E quais objetos celestes devem ou não ser incluídos nas previsões? O astrônomo francês Jean-Claude Pecker lembra que os astrólogos parecem ter uma visão bastante curta, por limitarem sua atividade ao nosso sistema solar. Bilhões de corpos em todos os confins do universo poderiam somar a sua influência àquela proporcionada pelo Sol, pela Lua e pelos planetas. Será que uma pessoa cujo horóscopo omite os efeitos do pulsar do Caranguejo e de Andrômeda realmente recebe uma interpretação completa?

A distância até esses objetos é importante? Para a astrologia, parece que não. Por exemplo, mesmo que Saturno seja importante para caracterizar um mapa astral (e esteja fisicamente o mais próximo possível da Terra, em termos de suas órbitas), Marte e Vênus sempre estarão mais perto de nós do que Saturno, independentemente de nossa posição relativa a eles. No entanto, a importância de ambos nas previsões é variável.

Essa discussão conduz a que tipo de força define as interações astrológicas. A força gravitacional está descartada, pois aquela exercida sobre a criança pelo médico que faz um parto é seis vezes maior do que a de Marte. Já a força de maré do médico é aproximadamente dois trilhões de vezes maior que a de Marte. Deveríamos incluir a personalidade do médico no horóscopo, assim como incluímos as características de Marte?

Como as influências astrológicas parecem não depender completamente da distância entre os corpos, isso traz a questão de que tipo de força é essa, não detectada, até agora, por nenhum experimento, em nenhum laboratório, terrestre ou espacial.

Colocando termos astrológicos no contexto astronômico, expressões como “Urano entrou em Aquário...” ou “Plutão ficará 13 anos em Sagitário...” não fazem o menor sentido. Do ponto de vista das constelações, elas não são reais, como um planeta, mas apenas um arranjo de estrelas que nem estão fisicamente próximas, como sua projeção do céu faz parecer. Se o leitor experimentar olhar para o céu em uma noite clara, notará que existem infinitas possibilidades de ‘ligar os pontos’ e imaginar figuras. E foi isso que os antigos fizeram e popularizaram, ao criar as constelações. Elas não estão na mesma posição na eclíptica (plano da órbita da Terra ao redor do Sol) em que foram concebidas há mais de 3 mil anos. E, certamente, não estarão nessa mesma posição relativa, formando o padrão que vemos hoje, daqui a 2 mil anos.

Do ponto de vista simbólico, a mesma associação de estrelas que representa a cauda do ‘Escorpião’, em nosso zodíaco, representa a constelação do Anzol, na mitologia polinésia. Atribuir um determinado significado a um ou outro símbolo implica atribuir interpretações e, em consequência, influências diferentes a um mesmo ‘objeto’. Assim, como explicar que o mesmo ‘objeto’, à mesma distância da Terra, tenha efeitos diferentes, dependendo do símbolo a ele associado? A definição de pseudociência é ampla e pode incluir, além da astrologia, qualquer conjunto de procedimentos e ‘teorias’ que tentem se disfarçar como ciência sem realmente sê-la. A discussão dos limites entre ciência e pseudociência inclui a questão do que é ciência e como defini-la. Entretanto, vale a pena discutir porque devemos nos preocupar com as pseudociências.

Diversas formas de pseudociência nasceram de superstições antigas, assim como vários ramos da ciência ortodoxa. Medicina, química e a própria astronomia são bons exemplos, de modo que suas origens não são o problema. A questão, no caso da astrologia, é saber se suas previsões são verificáveis, dentro dos parâmetros científicos, já que muitas vezes astrólogos vestem suas explicações com termos e jargão científicos, de modo a lhes emprestar maior credibilidade. A inexistência de um mecanismo cientificamente aceito para explicar previsões astrológicas seria irrelevante se, pelo menos estatisticamente, a astrologia fizesse o que ela diz que pode fazer, e esses feitos pudessem ser validados entre seus próprios pares e aceitos, além de uma dúvida razoável, por cientistas.

Pode-se apontar, muitas vezes, que existem explicações mais simples e menos fantasiosas – por vezes, até corriqueiras ou prosaicas – para uma previsão astrológica que tenha se mostrado correta. Além disso, o acerto não garante que a ‘teoria astrológica’ funcione sempre (mesmo porque já foi amplamente mostrado que, estatisticamente, ela não funciona). Também não prova que o método de previsão será reprodutível por outros astrólogos na mesma situação ou em situações semelhantes. Astrônomos devem se pronunciar sempre que a ocasião for adequada para mostrar as falhas da astrologia sob o ponto de vista científico e encorajar um interesse no cosmo real. Um cosmo de astros remotos que são impiedosamente indiferentes às vidas e aos desejos das criaturas da Terra, muito antes dos tempos em que os seres humanos se aconchegavam junto às fogueiras, com medo da noite.

Bem até aqui eu reproduzi de uma certa forma os argumentos do astrônomo Carlos Alexandre Wuensche e tenho que concordar que são argumentos pertinentes e inteligentes.

Mas e o que os astrólogos têm a dizer sobre tudo isso? A psicoterapeuta junguiana e astróloga Liz Greene afirma sobre o Destino:

“ O destino significa: isso estava escrito. É terrível pensar em algo escrito com
tamanha determinação por uma mão totalmente invisível. Esse fato implica não só impotência, como ainda o obscuro mecanismo de alguma enorme e impessoal Roda ou de um Deus bastante ambíguo que tem menos consideração do que gostaríamos para com nossas esperanças, sonhos, desejos, afeições, méritos ou até mesmo pecados. De que valem os esforços da pessoa, seus conflitos morais, seus simples atos de amor e de coragem, seu empenho para o aperfeiçoamento de si próprio, de sua família e de seu mundo, se tudo, no final das contas, é tornado vão pelo que já foi escrito? Temos sido nutridos, nos últimos dois séculos, num pábulo bastante suspeito de autodeterminação racional, e essa visão do destino nos ameaça com uma experiência de desespero real ou de caótica catarse na qual a coluna dorsal do homem ético e moral desmorona. Existe igualmente uma dificuldade com relação à abordagem mais mística do destino, pois ao romper a unidade do corpo e do espírito com a finalidade de buscar refúgio contra os estreitamentos da sorte, a pessoa cria uma dissociação artificial de sua própria lei natural e poderá conjurar no mundo exterior o que está evitando no íntimo.

Entretanto, para a mente grega, como para a mente da Renascença, a visão do
destino não destruiu a dignidade da moralidade ou do espírito humanos. Se algo aconteceu, foi o oposto. O primeiro poeta religioso da Grécia, Hesíodo, diz
simplesmente que o curso da Natureza não é senão indiferente ao certo e ao errado. Ele conclui que há uma definida e simpática relação entre a conduta humana e a lei ordenada da Natureza. Quando um pecado é cometido ― tal como o incesto inconsciente de Édipo ― toda a Natureza é envenenada pelo delito do homem, e Moira revida fazendo recair imediatamente uma grande desgraça sobre a cabeça do transgressor. O destino, para Hesíodo, é o guardião da justiça e da lei, e não a fortuita e predeterminante força que dita cada ação de um homem. Esse guardião fixou os limites da original ordem da Natureza, dentro dos quais o homem deve viver porque é parte desta; e ele aguarda para cobrar a penalidade por cada transgressão. E a morte, visto ser
a declaração definitiva de Moira, o "quinhão" ou o limite circunscrito além do qual os seres mortais não podem transpor, não é uma indignidade, porém uma necessidade que deriva de uma fonte divina”.

O que Liz Greene diz sobre o ceticismo do homem moderno?

“ Eu, no entanto, não acho que tenhamos perdido o medo do destino, apesar de zombarmos dele; pois, se o homem moderno fosse realmente tão esclarecido a ponto de superar esse conceito "pagão", não teria o hábito de ler furtivamente a seção de astrologia no jornal, nem de mostrar compulsão a ridicularizar, sempre que possível, os porta-vozes do destino. Tampouco ficaria tão fascinado pelas profecias, que são as criadas da sorte. As Centúrias de
Nostradamus, essas fantásticas visões do futuro do mundo, jamais deixaram de ser impressas, e cada nova edição vende uma quantidade astronômica de exemplares. Quanto ao ridículo, sou de opinião de que o medo, quando não admitido, disfarça-se muitas vezes de desprezo agressivo, e de tentativas um tanto forçadas para desaprovar ou denegrir a coisa que causa ameaça. Todo quiromante, astrólogo, cartomante ou vidente já se deparou com esta peculiar, mas inequívoca ofensiva dos 'céticos'.”

O que a autora pensa do fenômeno da vidência?

“A astrologia, ao lado do tarô, da quiromancia, da cristalomancia e talvez também do I Ching que agora se estabeleceu firmemente no Ocidente, são os modernos mensageiros da antiga e digna função de vidência. Essa tem sido, desde tempos imemoriais, a arte de interpretar as intenções obscuras e ambíguas dos deuses, embora possamos chamar isso agora de intenções obscuras e ambíguas do inconsciente, e está voltada para a apreensão de kairos, o "momento certo". Jung usou o termo sincronicidade com relação a essas coisas, como um meio de tentar lançar luz sobre o mistério da coincidência significativa ― quer se trate da coincidência de um acontecimento externo aparentemente não relacionado com um sonho ou estado subjetivo, ou de um acontecimento com o esquema de cartas, de planetas, de moedas. Mas seja qual for a linguagem que usemos, a psicológica ou mítica, a religiosa ou "científica", no cerne da adivinhação está o esforço para interpretar o que está sendo ou foi escrito, quer expliquemos esse mistério pelo conceito psicológico de sincronicidade ou pela muito mais antiga crença no destino. ”

Agora mais uma vez nos vem a pergunta: “Somos predestinados ou livres?”Já que nessa altura do estudo, mencionou-se o suposto papel dos deuses na nossa vida.

Liz Greene diz que somos os dois ao mesmo tempo. Mas ela é um pouco suspeita, afinal a obra “Astrologia do Destino” demonstra que ela crê piamente que somos influenciados pelos deuses do zodíaco. Há nas suas páginas todo um determinismo que chega a incomodar. E por isso penso que se formos seguir a trilha de Liz Greene, chegaremos a um universo de pessoas rigidamente controladas por forças desconhecidas. E sendo assim haveria pouca ou nenhuma liberdade nos nossos atos e decisões.

Nessa altura do texto considero pertinente expor a minha compreensão do problema, ainda que seja obrigado a reconhecer que os leitores podem não compartilhar dos mesmos interesses e inclinações que eu.

Vou me colocar esclarecendo como é que um imanentista, ou seja, alguém que nega a criação do universo por um ser, inteligência, policial, ditador, prefeito ou seja, lá o que for, consegue ler livros de astrologia e consegue frequentar ilês de candomblé.

Penso que sou livre para fazer escolhas. Escolhi o sacralismo imanentista como sistema de explicação da realidade. Assim, nego o sistema de explicação da realidade bíblico que afirma ter sido o universo criado em 6 dias apenas. Quando na verdade o universo não foi criado por nada e nem ninguém. Surgiu espontaneamente de um ponto geométrico que explodiu sabe-se lá por que e quando. Ou seja, nego a intencionalidade do universo.Nego a teleologia do universo. O universo é um conglomerado de regularidades(leis) cegas e indiferentes ao homem, suas rezas e pedidos. O mundo natural é indiferente ao homem como se viu na obra do psicanalista Sigmund Freud O Futuro de uma ilusão. E o homem tem a tendência de querer subornar o mundo natural, tentar domesticá-lo e humanizá-lo com rezas, súplicas e, no caso da religião tradicional africana e seus derivados (candomblé), com oferendas cruentas.

Somos livres? É claro que somos, principalmente se não formos bíblicos. Mas não somos sozinhos. Não somos ilhas. Vivemos em comunidade. Às vezes compartilhando valores e crenças comuns com essa comunidade. Outras vezes negando esses valores e crenças, mas sempre num processo de relação e interação.

Quando eu comecei a aprender a ler e passei a devorar os livros que minha mãe professora trazia da escola onde ela ensinava, eu comecei a questionar tudo. E passei a questionar a Igreja católica que minha mãe nos obrigava a freqüentar. Nunca gostei de missa, até hoje. E chegou um momento que eu comuniquei a ela que não faria primeira comunhão e que não mais frequentaria a igreja. E assim foi. Como eu era muito adolescente nessa época e morava no subúrbio, não posso dizer que entrei no ateísmo por convicção intelectual, até porque os livros que minha mãe trazia eram muito tolos e fracos.

No restante do meu adolescimento eu fui tendo contato com livros mais espessos e consistentes. Além disso, o meu ingresso no movimento estudantil secundarista abriu para mim um universo de inquietação intelectual, que só morar no subúrbio não me daria nunca.

No movimento estudantil secundarista eu convivi com religiosos de diversas tendências e principalmente com ateus e materialistas ortodoxos.

Tudo iria bem se eu não tivesse passado por uma estranha fenomenologia a partir de 1993. Eu, criado no ceticismo, comecei a ver um homem dentro do meu quarto tarde da noite e a sair correndo com medo, gritando.

Inicialmente busquei a Psiquiatria e a Psicoterapia, pois estava convencido de que estava realmente ficando louco. Como a medicação e a psicoterapia não funcionaram (e não funcionam muito até hoje) eu busquei estudar as chamadas religiões mediúnicas.

Minha porta de entrada nesse mundo foi pelo catimbó, embora eu nem soubesse que o lugar onde fui parar no meu próprio bairro professava esse tipo de doutrina. Eu pensava que tinha entrado numa casa de umbanda. E tal confusão demonstra o quanto o sacerdote dessa casa era despreparado para lidar com intelectuais.

Depois de um tempo eu me afastei dessa casa, porque eu não via por parte de seus membros e frequentadores interesses intelectualistas.

Aí busquei a Raja-Yoga através da organização Brahma Kumaris. Mas como era num bairro bem elitizado, acabei demorando pouco também. Aproveitei e passei também no mesmo bairro elitizado pela Bahkti-Yoga dos Hare Krsnas.

E a fenomenologia continuava quase toda noite, com ou sem medicação supressiva.
E como era e sou pobre, acabei conhecendo e experimentando um Centro Espírita Kardecista do meu bairro. Lá eu permaneci por 9 anos conflituosos, já que eu tinha uma herança marxista indisfarçável.

E os fenômenos estranhos continuavam me incomodando a noite do mesmo jeito.

Depois, em 2002 finalmente conheci uma casa umbandista decente, a Cabana Luz do Congo (mais conhecida como Pai Didi). Nessa época, O pai Didi ainda era vivo mas já estava bem debilitado e pouco contato tive com ele. Tive longas conversas com o filho dele e administrador do Centro de Umbanda, o seu Júlio.

Mas os fenômenos continuavam...

Foi um processo muito rico ter conhecido essa casa de umbanda. Afinal, ela é praticamente o único centro umbandista a possuir uma biblioteca rica e variada. Passei de 2002 a 2008, lendo boa parte do acervo dessa biblioteca cedido pelo seu Júlio.

Aprendi muita coisa sobre umbanda, quimbanda, esoterismo, mas pouca coisa sobre candomblé.

Em 2008, um amigo anarco-punk me leva numa festa de um ilê de candomblé keto na Regional VI. E lá vejo a diferença entre a liturgia da umbanda, do catimbó e do candomblé keto que esse ilê pratica.


Hoje em dia continuo vendo os vultos e sentindo presenças estranhas no meu quarto mais com menos intensidade.

Ah! Quase ia me esquecendo de que nessa peregrinação religiosa eu também frequentei escolas dominicais pentecostalistas e tradicionalistas. E os fenômenos continuaram do mesmo jeito. Só que nessas igrejas evangélicas eu fui mais com intenções etnográficas e antropológicas e não com intenções devotas ou religiosas. E pelo menos deixei isso claro para eles.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O ser humano é livre ou deveria ser para fazer escolhas. Os orixás, nkices e voduns não condicionam o ser humano rigidamente. Eles, como são arquétipos, apenas servem de modelos de conduta a ser imitados ou evitados.

Ser filho de Omulu não é uma predestinação rígida e inflexível no meu entender. É apenas um modo como uma cultura ancestral e arcaica resolveu criar um elemento de inspiração. Assim sendo, o orixá não condiciona nem determina rigidamente ninguém, apenas inspira. E inspira só aqueles que estiverem dispostos a ouvir suas prédicas e para tanto se faz necessário consultar o babalaô para sabê-las

ETNOGRAFIA, CHAT E CANDOMBLÉ



ETNOGRAFIA, CHAT E CANDOMBLÉ

Este estudo pretende fazer uma aproximação etnográfica da Sala de Bate-Papo de Candomblé da UOL. Aproximação bem entendida porque não sou etnógrafo nem antropólogo de formação. Sou graduado em Letras pela UFC e fui aluno regular do Mestrado em Literatura da UFC, mas abandonei o Mestrado por uma série de problemas pessoais (entre eles o fato de não ter bolsa da CAPES). Também é uma aproximação porque o corpus do estudo é fluido por excelência: uma sala de bate-papo da Internet.

Fazer etnografia de uma sala de bate-papo parece não ser algo muito concreto e controlável do ponto de vista científico, por inúmeras razões.

Vamos a elas.Primeiro.A sala fica na categoria ‘religiões’ do Bate-papo UOL.Mas cabe perguntar: será realmente o candomblé uma religião como as outras? O que teria o culto de orixás, nkices e voduns de peculiar?

Para Durkheim e para Mircea Eliade, a religião é passiva. O homem religioso se submete candidamente aos caprichos da divindade. E o candomblé é assim? Claro que não. O candomblecista não tem uma relação passiva ou contemplativa com o sagrado, com o divino, muito pelo contrário, o candomblecista manipula através de práticas mágicas o numinoso, o sagrado, o divino. Assim, o Candomblé não se parece com uma religião tradicional como as religiões de salvação, mas seria uma religião mágica na definição de Reginaldo Prandi, ainda que para Luis Nicolau Parés o candomblé não deixe de perder seu aspecto conventual.

Segundo. Como formar um corpus de pesquisa definível e controlável se a cada instante os informantes saem da sala e aparecem novos informantes? Outro problema: os informantes podem assumir identidades postiças ou pouco confiáveis. Assim quem usa o nick de babalorixá pode revelar depois de 20 minutos de conversa talvez não ser nem iniciado no culto ou ser até um cristão ou umbandista (o que a rigor é muito parecido um com o outro), como muitas vezes presenciei.

Terceiro. A presença chata de evangélicos pentecostais que entram na sala para evangelizar o pessoal é uma verdadeira conversa de surdos. Porque eles partem do pressuposto de que o candomblecista é um servo do tal de Satanás, enquanto no Candomblé Satanás não existe ou não tem nenhuma função. Já que o candomblé se inspira em matrizes africanas e portanto pré-cristãs e pré-mosaicas e sendo assim não faz e não faria sentido para um candomblecista autêntico e esclarecido acreditar em Satanás ou no dualismo judaico-cristão.

Quarto. A presença incômoda de quimbandeiros ou do que chamo ironicamente de satanistas cristãos. São aquelas pessoas que usam nicks idiotas do tipo ‘Joana Capeta’ ou
‘Zé encapetado’. Eu nunca tive muita paciência de puxar conversa com esses tipos, mas como as conversas são abertas para todos lerem, poderemos flagrar pérolas do tipo: “Satanás existe!” ou “Fiz o pacto com o Diabo!” que parece mesmo conversa de psicopatas ou pastores pentecostais (que a rigor são muito parecidos).

Mas para quem quiser conhecer a sala imagino que seja a única do gênero de portais grandes de Bate-papo. São duas salas de candomblé mas geralmente só uma fica com internautas, a segunda fica vazia na maioria dos casos. O que supõe o número pequeno de praticantes autênticos do candomblé puro no país ou então é uma pista de que talvez o número de candomblecistas no país seja expressivo, mas poucos são aqueles que estão incluídos no mundo digital. Só uma pesquisa estatística daria conta de responder tal questão. A obra do sociólogo Reginaldo Prandi talvez responda bem sobre os aspectos demográficos do candomblé.

Gostaria de entender o que leva os evangélicos a entrarem autoritariamente numa sala em que não dominam o assunto nem sua terminologia e que revelam através de versículos fora de contextos repetidos ad nauseam, que não estão nenhum um pouco interessados em interagir mas sim em impor o tal do Jesus Cristo e o tal do Diabo e sua visão de mundo simplista e binária; que tende a resumir o grande universo em apenas dois princípios excludentes: o Bem absoluto (Deus) e o Mal absoluto (Satanás).

Eu já tentei conversar com esses cristãos insistentes e chatos, mas eles são impenetráveis a argumentos lógicos e científicos já que sua visão fundamentalista não consegue enxergar nuances nas coisas, mas apenas o preto ou o branco.

E sobre o que conversam as pessoas que pelos nicks revelam ser iniciadas no culto? Não há uma padronização. Há uma diversidade de temáticas conforme o cargo no santo ou a nação que a pessoa pertence. Mas o que pude perceber é que os mais esclarecidos tem receio de compartilhar fundamentos mais profundos do culto, por medo de estarem difundido irresponsavelmente segredos que só devem ser compartilhados entre o adepto e seu zelador de santo.

Uma forma que estes têm de saber se a pessoa é realmente do santo ou não é perguntar: Qual o seu axé? O leigo ficará boiando, pois axé é um termo que tem vários significados. Mas entre eles há um que remeteria a tradição que a pessoa foi iniciada, ou seja, a qual axé da Bahia a pessoa ou o pai de santo da pessoa pertence. Como essa informação é muito técnica e específica, é uma estratégia que o povo de santo usa para isolar aquele internauta leigo que pode só confundir as coisas intencionalmente ou não.

E para encerrar vou dizer como me apresento nessas salas. Utilizo diversos nicks mas sempre deixo claro que não sou iniciado no culto, sou honesto. Mas sou um pesquisador das matrizes da chamada África continental e da África da diáspora. E por isso acontecem coisas díspares: posso ser bem tratado ou desprezado, dependendo da pessoa. Afinal o povo de santo tem uma relação ambígua com pesquisadores, que segundo eles publicam muitas besteiras sobre o culto dos orixás, ainda que com seu trabalho de pesquisa acabem legitimando o candomblé como uma coisa séria.