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quinta-feira, 20 de setembro de 2012
ETNOGRAFIA, CHAT E GLS: ENCONTRO POSSÍVEL?
Com este ensaio pretendo analisar um Disque Amizade GLS da cidade de Fortaleza. No caso falo do serviço telefônico 3468 3000, criado para atender ao público de gays, lésbicas e simpatizantes da capital do Ceará.
A Etnografia foi criada originalmente para descrever povos e etnias indígenas e só mais tarde também foi utilizada para descrever os hábitos e códigos culturais de outras comunidades.
Descrever os hábitos, gestos, símbolos, ritos e mitos de uma comunidade exige que o pesquisador se disponha até ir ao seu lócus de pesquisa. Mas e quando se trata de observar os hábitos e representações de uma comunidade de falantes como de uma sala de bate-papo gols telefônico? Aqui a tarefa pode se tornar temerária e difícil, pois uma coisa é o pesquisador ir até um ilê de candomblé ou uma igreja evangélica ou a sede de um coletivo de anarco-punks observar e registrar o que percebe nesse lugar. Mas quando se trata de uma comunidade fluida como é uma sala de bate-papo? Como observar regularidades e recorrências quando a cada cinco minutos a sala se preenche de novas pessoas e sem falar que essas pessoas podem assumir personalidades que não são as suas?
Qual a relevância de observar gays, lésbicas e bissexuais conversando num serviço telefônico? Esse estudo pode fornecer dados para pesquisadores em etnografia e psicologia social, pois ao dar ouvidos ao que esses indivíduos conversam somos confrontados com suas crenças e cosmovisões particulares.
No serviço não há só pessoas que ligam da cidade de Fortaleza, mas também usuários que ligam da região Metropolitana, de cidades mais afastadas como Juazeiro e eu já conversei com um rapaz que falava de Pernambuco.
A questão da identidade numa sala como essa é bem curiosa. Muitas pessoas usam nomes falsos e até criam personalidades postiças. Homens, originalmente másculos no seu cotidiano, na sala atendem pelo nome de Panela Skylab e usam gíria do universo das drag-queens e das travestis.
Os objetivos de quem liga varia muito. Vai desde homens casados que ligam para marcar um encontro sexual e furtivo com outro usuário enquanto a esposa enfermeira foi dar um plantão até rapazes que ligam apenas para ouvir os amigos que participaram do show da Alanis Morisseti.
As representações que esses usuários têm da comunidade homossexual, assim como a cosmovisão gls é bem peculiar. Revela uma comunidade, um pertencimento populacional de hábitos culturais bem específicos.
Ao ouvir essas pessoas o pesquisador pode identificar o preconceito e a desigualdade social que também existe no universo ideológico da comunidade de homoafetivos. Várias vezes presenciei homens gays da Aldeota perguntando se havia gays do mesmo bairro na sala, pois segundo eles não queriam conversar com os gays das regiões mais pobres de Fortaleza. Isso se evidencia ou em afirmações explícitas ou em comentários jocosos sobre o que esses gays endinheirados denominam de bichas pão-com-ovo.
O preconceito e a elitização econômica também ficam evidenciados: quando se ouve os gays que foram para o show da Alanis Morisseti fazerem questão de frisar o quanto gastaram no preço do ingresso, no consumo de bebidas e iguarias caras durante o show e no retorno para casa tarde da madrugada em carros caros e importados.
As representações desses indivíduos revelam porque a indústria do entretenimento investe tanto nesses gays endinheirados e revela também a lucratividade de apostar nesse "nicho de mercado".
Certa vez foi interessante ouvir de uma drag-queen como ela compreende o relacionamento homossexual. Basta ver o filme americano O segredo de brokeback mountain, pois lá há a explicação de como termina todo relacionamento entre gays: um morto e outro: olhando para uma jaqueta.
O que se pode perceber nos usuários desse serviço é de que há um queixa comum: a da solidão.
E dá para se concluir o motivo, pois na pós-modernidade a tônica dos relacionamentos e dos vínculos é o esgarçamento, a superficialidade dos contatos. As pessoas vivem um paradoxo de não quererem fidelizar relações e ao mesmo tempo quererem estabilidade. Como posso ter estabilidade se não me fidelizo ou não me ligo profundamente a ninguém?
Uma coisa que merece menção é a participação lésbica na sala: pequena e contida. E outra menção é a grande quantidade de bissexuais que ligam para o serviço com intenções apenas de satisfazer genitalmente seus instintos sem maiores vínculos.
Postado por
XAVIER, Charles Odevan. Escritor profissional de livros especializados.
às
13:16
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quarta-feira, 19 de setembro de 2012
ETNOGRAFIA, CHAT E CANDOMBLÉ


ETNOGRAFIA, CHAT E CANDOMBLÉ
Este estudo pretende fazer uma aproximação etnográfica da Sala de Bate-Papo de Candomblé da UOL. Aproximação bem entendida porque não sou etnógrafo nem antropólogo de formação. Sou graduado em Letras pela UFC e fui aluno regular do Mestrado em Literatura da UFC, mas abandonei o Mestrado por uma série de problemas pessoais (entre eles o fato de não ter bolsa da CAPES). Também é uma aproximação porque o corpus do estudo é fluido por excelência: uma sala de bate-papo da Internet.
Fazer etnografia de uma sala de bate-papo parece não ser algo muito concreto e controlável do ponto de vista científico, por inúmeras razões.
Vamos a elas.Primeiro.A sala fica na categoria ‘religiões’ do Bate-papo UOL.Mas cabe perguntar: será realmente o candomblé uma religião como as outras? O que teria o culto de orixás, nkices e voduns de peculiar?
Para Durkheim e para Mircea Eliade, a religião é passiva. O homem religioso se submete candidamente aos caprichos da divindade. E o candomblé é assim? Claro que não. O candomblecista não tem uma relação passiva ou contemplativa com o sagrado, com o divino, muito pelo contrário, o candomblecista manipula através de práticas mágicas o numinoso, o sagrado, o divino. Assim, o Candomblé não se parece com uma religião tradicional como as religiões de salvação, mas seria uma religião mágica na definição de Reginaldo Prandi, ainda que para Luis Nicolau Parés o candomblé não deixe de perder seu aspecto conventual.
Segundo. Como formar um corpus de pesquisa definível e controlável se a cada instante os informantes saem da sala e aparecem novos informantes? Outro problema: os informantes podem assumir identidades postiças ou pouco confiáveis. Assim quem usa o nick de babalorixá pode revelar depois de 20 minutos de conversa talvez não ser nem iniciado no culto ou ser até um cristão ou umbandista (o que a rigor é muito parecido um com o outro), como muitas vezes presenciei.
Terceiro. A presença chata de evangélicos pentecostais que entram na sala para evangelizar o pessoal é uma verdadeira conversa de surdos. Porque eles partem do pressuposto de que o candomblecista é um servo do tal de Satanás, enquanto no Candomblé Satanás não existe ou não tem nenhuma função. Já que o candomblé se inspira em matrizes africanas e portanto pré-cristãs e pré-mosaicas e sendo assim não faz e não faria sentido para um candomblecista autêntico e esclarecido acreditar em Satanás ou no dualismo judaico-cristão.
Quarto. A presença incômoda de quimbandeiros ou do que chamo ironicamente de satanistas cristãos. São aquelas pessoas que usam nicks idiotas do tipo ‘Joana Capeta’ ou
‘Zé encapetado’. Eu nunca tive muita paciência de puxar conversa com esses tipos, mas como as conversas são abertas para todos lerem, poderemos flagrar pérolas do tipo: “Satanás existe!” ou “Fiz o pacto com o Diabo!” que parece mesmo conversa de psicopatas ou pastores pentecostais (que a rigor são muito parecidos).
Mas para quem quiser conhecer a sala imagino que seja a única do gênero de portais grandes de Bate-papo. São duas salas de candomblé mas geralmente só uma fica com internautas, a segunda fica vazia na maioria dos casos. O que supõe o número pequeno de praticantes autênticos do candomblé puro no país ou então é uma pista de que talvez o número de candomblecistas no país seja expressivo, mas poucos são aqueles que estão incluídos no mundo digital. Só uma pesquisa estatística daria conta de responder tal questão. A obra do sociólogo Reginaldo Prandi talvez responda bem sobre os aspectos demográficos do candomblé.
Gostaria de entender o que leva os evangélicos a entrarem autoritariamente numa sala em que não dominam o assunto nem sua terminologia e que revelam através de versículos fora de contextos repetidos ad nauseam, que não estão nenhum um pouco interessados em interagir mas sim em impor o tal do Jesus Cristo e o tal do Diabo e sua visão de mundo simplista e binária; que tende a resumir o grande universo em apenas dois princípios excludentes: o Bem absoluto (Deus) e o Mal absoluto (Satanás).
Eu já tentei conversar com esses cristãos insistentes e chatos, mas eles são impenetráveis a argumentos lógicos e científicos já que sua visão fundamentalista não consegue enxergar nuances nas coisas, mas apenas o preto ou o branco.
E sobre o que conversam as pessoas que pelos nicks revelam ser iniciadas no culto? Não há uma padronização. Há uma diversidade de temáticas conforme o cargo no santo ou a nação que a pessoa pertence. Mas o que pude perceber é que os mais esclarecidos tem receio de compartilhar fundamentos mais profundos do culto, por medo de estarem difundido irresponsavelmente segredos que só devem ser compartilhados entre o adepto e seu zelador de santo.
Uma forma que estes têm de saber se a pessoa é realmente do santo ou não é perguntar: Qual o seu axé? O leigo ficará boiando, pois axé é um termo que tem vários significados. Mas entre eles há um que remeteria a tradição que a pessoa foi iniciada, ou seja, a qual axé da Bahia a pessoa ou o pai de santo da pessoa pertence. Como essa informação é muito técnica e específica, é uma estratégia que o povo de santo usa para isolar aquele internauta leigo que pode só confundir as coisas intencionalmente ou não.
E para encerrar vou dizer como me apresento nessas salas. Utilizo diversos nicks mas sempre deixo claro que não sou iniciado no culto, sou honesto. Mas sou um pesquisador das matrizes da chamada África continental e da África da diáspora. E por isso acontecem coisas díspares: posso ser bem tratado ou desprezado, dependendo da pessoa. Afinal o povo de santo tem uma relação ambígua com pesquisadores, que segundo eles publicam muitas besteiras sobre o culto dos orixás, ainda que com seu trabalho de pesquisa acabem legitimando o candomblé como uma coisa séria.
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