BIBLIOTECA E CÂNONE DA UMBANDA
Este estudo pretende analisar o acervo da Biblioteca da Cabana Luz do Congo -situada na Rua Gonçalves Ledo, 1779 no bairro Piedade em Fortaleza - no sentido de buscar saber quais são os livros canônicos e quais seriam os livros proscritos da Umbanda, se é que eles existem.
SOBRE O ACERVO
O acervo da Cabana Luz do Congo foi organizado pelo pai de Santo da casa, Francisco Antonio dos Santos (pai Didi), hoje falecido, no ano de 1968. Parte do acervo foi comprado e outra parte foi doada ao longo dos anos, segundo informou o filho, Julio Francisco dos Santos, responsável pelo espólio do pai e pela administração executiva e financeira do Centro.
Seu Júlio informou que não há uma estatística de quantos pessoas utilizaram ou utilizam o acervo ao longo dos anos, que este tipo de informação se perdeu com a morte do pai. O que ele sabe informar com absoluta certeza, é de que o acervo atrai mais a atenção de pesquisadores das Universidades, do que propriamente aos frequentadores e dirigentes da casa. Este dado é grave, quando pensamos no perfil sócio-econômico dos frequentadores e dirigentes da casa: pessoas escolarizadas da classe média, funcionários públicos, profissionais liberais, comerciantes e empresários. Ou seja, os umbandistas cearenses não gostam de ler, pelo menos, na maioria dos casos.
Diante desse dado perguntei qual era a função de uma biblioteca que não desperta interesse. Seu Júlio respondeu que a intenção do seu pai ao comprar do próprio bolso, reunir e organizar o acervo, era a de difundir uma umbanda esotérica iniciática em Fortaleza - corrente da qual a Cabana Luz do Congo é o único lugar na capital cearense, que professa este tipo de umbanda.
O acervo se divide por assuntos, sendo eles: Umbanda, Quimbanda, Kardecismo, Esoterismo, Racionalismo Cristão, Pietro Ubaldo, Budismo, História, Rosa Cruz, Filosofia, Chama Sagrada, Yoga, Diversos e duas prateleiras cheias de livros protestantes e católicos.
É interessante perceber a presença de livros do cânone protestante e católico numa casa de Umbanda. Pude conferir nas duas prateleiras obras evangélicas da Bible Students Association, dos Girões e da Casa Publicadora Brasileira, em títulos como as traduções de João Ferreira de Almeida do Novo Testamento e exegetas como E. G. White; como também, pude conferir títulos de duas importantes editoras católicas: Vozes e Paulinas.
Tal informação nos leva a supor que Pai Didi queria promover um diálogo inter- religioso, antes mesmo da moda ecumenista da década de 70 e um debate científico, que houve enquanto o mesmo dirigiu grupos de estudos, antes de ser vitimado pela velhice e doença.
PARA QUE SERVE UM LIVRO DE UMBANDA?
Muitos poderão perguntar qual é a utilidade de um livro umbandista, como por exemplo, um amigo da faculdade a me ver com um livro, cuja capa tinha impresso a palavra "umbanda", perguntou se era um manual de feitiços.
É curioso de que alguém ao ver um indivíduo com a Bíblia Sagrada, não faz a mesma pergunta, mesmo que o Antigo Testamento tenha uma coleção de feitiços feitos por Moisés para destruir os povos inimigos.
Assim, somos levados a perceber o caráter eminentemente prático do culto umbandista no imaginário da população brasileira, pois como mais de uma vez afirmaram certas autoridades do espiritismo kardecista, a Umbanda seria um mediunismo sem doutrina.
Analisando o acervo da Cabana Luz do Congo, podemos responder parte das perguntas feitas por leitores que nunca leram livros de Umbanda.
Na obra A Cartilha de Umbanda de Candido Emanuel Felix,publicada no Rio de Janeiro em 1965 pela editora Eco, temos perguntas do tipo: o que é umbanda? Pode-se aceitar Umbanda como religião? Como definir o médium de incorporação? Como pode o médium trabalhar numa tenda? Entre outras. Deste modo, um livro de umbanda serve para divulgar aspectos doutrinários e não apenas limitar-se a conjuntos de descrições de feitiços ou de oferendas e receitas culinárias para este ou aquele orixá. Ou seja, a Umbanda, contrariando o diagnóstico de espíritas kardecistas apressados e desinformados, tem doutrina sim.
QUAL O CARÁTER DA “DOUTRINA” UMBANDISTA?
A doutrina umbandista existe e foi reunida por WW da Matta e Silva, em dez livros publicados pela Editora Freitas Bastos entre os anos das décadas de 60, 70 e 80. E pode ser conferida também nas obras do pai de santo e médico F. Rivas Neto e do poeta Roger Feraudy.
Entretanto, é bom vermos sobre a visão de que se há uma doutrina padrão umbandista ou não, nas palavras de Dandara e Zeca Ligiéro em Iniciação à umbanda :
“A Umbanda é uma religião em processo, autoconstruindo-se a partir da sua própria prática religiosa dentro da dinâmica de uma tradição oral multicultural. A enorme e contraditória bibliografia de escritores umbandistas apenas atesta a impossibilidade de transformar esse universo múltiplo, em algo unívoco estritamente dogmático e doutrinário.”
O leitor mais atento perceberá o caráter mestiço da, vamos chamar, doutrina umbandista, ao reunir influências afrodescendentes, indígenas, católicas, judaicas, islâmicas, kardecistas, rosa-cruzes, maçônicas e da Teosofia de Madame Blavatsky. Pois como o culto, a doutrina umbandista é uma espécie de síntese religiosa de todos os povos que existem na terra. E por ser síntese, ela é complexa e profunda. Tal fato talvez afastem os leitores umbandistas que - receosos de nada entenderem ou acabarem confusos com esse cipoal de referências - acabam não lendo as obras que com tanto esforço Matta e Silva e seus discípulos tentaram sistematizar.
EXISTE UM CÂNONE UMBANDISTA?
Geralmente quando se pensa em livros da tradição cristã a noção de cânone pode vir à baila. Pois se sabe que os livros canônicos seriam aqueles aceitos e reconhecidos pelas altas hierarquias da Igreja Cristã. Já os apócrifos ou proscritos seriam aqueles livros que circularam na época de Cristo e foram - parte deles - descobertos nas cavernas salgadas de Qumram no Mar Morto em 1948. Estes livros foram e são mal vistos pela Igreja Cristã por revelarem dados e narrativas inconvenientes, como a suposta personalidade travessa e malvada da infância de Jesus Cristo ou o seu suposto casamento cheio de filhos com Maria Madalena.
Entretanto, hoje parte da Igreja já sabe conviver com os conteúdos estranhos e extravagantes desses livros. Tanto que já é possível encontrá-los nas livrarias católicas.
Em se tratando da Umbanda, a noção de cânone teria mais um fundo literário do que propriamente teológico, pois ao contrário da Igreja Cristã, a Umbanda não dispõe de um clero organizado e hierarquizado a policiar seus escritores. Assim, os livros do médium WW da Matta e Silva seriam canônicos no sentido de bem escritos e sistematizados.
Por isso, fica difícil de estabelecer um critério semelhante ao da Igreja Cristã, para tratar de supostos livros proscritos dentro do universo editorial umbandista.
Entretanto, como venho lendo o acervo da Cabana Luz do Congo desde o ano de 2002, posso falar não propriamente em livros proscritos, mas em livros toscos e mal escritos em profusão.
São livros com baixa fundamentação teórica, hesitantes e confusos.
Seriam aquelas obras que a partir do índice ou da ausência dele, dedicam-se mais aos aspectos litúrgicos ou ritualísticos da umbanda, do que propriamente em devassar suas origens e estabelecer parâmetros doutrinários.
Porém, tudo aqui é novo como sabiamente comentou o ogã da Cabana Luz do Congo. Ele mesmo nunca tinha parado para pensar na possibilidade de livros proscritos, até pelo fato inegável de que boa parte dos praticantes de Umbanda não se interessa nem mesmo pelos livros bem feitos.
Assim, para concluir percebemos que nossa investigação apenas começou e partindo da constatação de que o público leitor umbandista prefere mais, quando se dispõe, a ler pontos cantados no intuito de decorá-los ou receitas de banhos de descarga, estaremos mexendo não apenas com problemas de uma comunidade religiosa específica, mas com o terrível hábito brasileiro de não gostar de ler.
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quarta-feira, 19 de setembro de 2012
terça-feira, 18 de setembro de 2012
KARDECISMO, MACUMBA, UMBANDA, QUIMBANDA E POLÍTICA



KARDECISMO, MACUMBA, UMBANDA, QUIMBANDA E POLÍTICA
Este estudo tem como propósito fazer um levantamento histórico do momento em que a Macumba - culto afro-brasileiro herdeiro da Cabula de origem bantu-angolense - se dividiu em dois cultos antagônicos (Umbanda e Quimbanda) no contato com o Kardecismo.
Este estudo é um diálogo crítico com várias fontes bibliográficas, mas sobretudo com a obra África de Geoffrey Parrinder (Lisboa/São Paulo: Editorial Verbo, 1987) e com a tese de doutorado Umbanda - Os "Seres Superiores" e os orixás/santos: um estudo sobre a fenomenologia do sincretismo umbandístico na perspectiva da Teologia Católica de Valdeli Carvalho Costa (São Paulo: Edições Loyola, 1983).
O TERMO MACUMBA
No início do século XX, o culto dos Negros bantu do Rio de Janeiro, ainda não era conhecido com o nome de Macumba. A primeira referência ao nome só irá aparecer no ensaio O Negro na Música Brasileira de Luciano Gallet em 1934. Depois disso, a macumba designará o culto da etnia bantu dos negros residentes no Rio de Janeiro.
A Macumba, segundo Valdeli Costa, desse período era ritualmente pobre e muito próxima da estrutura do culto praticado pela etnia Bantu na África. Invocam os mortos e os antepassados tribais, seres bem ou malfazejos. Acreditam na transmigração das almas
"o que no Brasil, os aproximará da doutrina Kardecista - no totemismo e nas práticas mágicas”
O TERMO UMBANDA
O grão-sacerdote da Macumba, na época, denominava-se umbanda, embora também fosse designado como "pai de terreiro". Ele era o evocador dos "espíritos" e o dirigente das cerimônias. O termo Umbanda ou Embanda é originário de "Ki-mbanda", o grão-sacerdote bantu, simultaneamente curandeiro, adivinho e feiticeiro.
O SURGIMENTO DA UMBANDA
A crescente difusão da Macumba entre a população pobre do Rio de Janeiro (negra ou branca) se deu pela conjugação da marginalização imposta no reordenamento urbano ("Belle-èpoque") e pela solução de problemas por parte das entidades espirituais que a Ciência oficial e a Medicina branca não conseguiam resolver. Neste ínterim a Macumba passa a atrair os homens brancos da classe média com maior escolaridade, conhecimentos e práticas da doutrina kardecista. Neste momento a estrutura ritual e doutrinária da Macumba entra em crise. Os neófitos, impregnados de padrões mentais e valores euro-brasileiros, começaram a questionar a Macumba, criticando e procurando esvaziá-la de seus traços africanos, de suas práticas rituais, repugnantes à sensibilidade branca (uso de sangue animal, pólvora, punhais, cachaça etc.).
Nesta altura cabe investigar: porque os brancos da classe média de intrusos passaram a galgar a chefia dos terreiros de Macumba. Sabe-se que uma das formas de poder e opressão é a alegação da escolaridade. Ou seja, em um ambiente de provável baixa-estima que caracterizava os pobres negros e brancos não-escolarizados, o ingresso do branco remediado que sabe usar a norma padrão da Língua Portuguesa, resultará no branqueamento compulsório e autoritário da Macumba. Entretanto, à medida que os brancos escolarizados passaram a dominar e impor seus parâmetros à Macumba suscitou-se forte resistência e oposição da parte dos Negros fiéis às antigas tradições. O atrito entre o apego aos valores tradicionais negros e o esforço "civilizador" e "branqueador" produziu uma cisão interna no culto. Os negros e terreiros fiéis às tradições ancestrais da Macumba deram origem ao que se passou a ser chamado de Quimbanda pela ala Kardecista da antiga Macumba. E esta ala Kardecista remanescente passou a se nomear de Umbanda. Desse modo, como não podemos esquecer a dimensão política da linguagem, a palavra Quimbanda passou a ser utilizada para detratar a facção oposta, com o intuito de acentuar o caráter primitivo da adversária, designando-a com o nome arcaico do sacerdote bantu na África. Dessa forma, os umbandistas, chefes de terreiro, dão uma conotação fortemente negativa à Quimbanda, apresentando-a, como votada a fazer o mal, através da magia negra. Assim, a Umbanda irá justificar sua existência como o combate à suposta ação maléfica exercida pela Quimbanda, através de seus Exus quimbandeiros.
O FIM DA MACUMBA
O nome Macumba tende a desaparecer, devido à forte conotação depreciativa que o termo possui. Desde 1968 que Valdeli Costa percebe a aversão dos umbandistas dos terreiros urbanos a serem chamados de "macumbeiros". Nos subúrbios, o termo Macumba ainda é usado. Na Cabana Espírita Maria Conga situada no Realengo (Rio de Janeiro), o ritual ainda reflete o período de coexistência pacífica das duas formas ritualísticas dentro do mesmo terreiro.
O SIGNIFICADO POLÍTICO DA UMBANDA
A Umbanda, entendida como a ala Kardecista da Macumba, surgiu com o intuito de uniformizar o ritual e a doutrina afro-brasileira, refreando a tendência inventiva dos pais de santo em seus terreiros. Ou seja, ela visou à homogeneização dos cultos tribais brasileiros na perspectiva de poder melhor vigiá-los, controlá-los, servindo como aliada da classe dominante no processo que os historiadores chamam de "Bella-èpoque".
A "Belle-èpoque" (final do século XIX e começo do século XX) se caracterizou como uma disciplinarização urbana que investiu em formas de controle social sobre as camadas baixas da sociedade (retirantes, moradores do subúrbio, crianças abandonadas, mendigos, doentes infecciosos) através dos asilos de mendicidade e de alienados mentais, lazaretos, reformatórios; utilizando-se de profissionais disciplinadores (médicos sanitaristas, bacharéis, militares e burocratas) com a intenção de instituir padrões comportamentais ajustados à disciplina do trabalho indispensável para a consolidação do capitalismo industrial (GLEUDSON PASSOS CARDOSO, 2002).
Desse modo, o Kardecismo, produto do Positivismo e do Evolucionismo, serviu como o braço invisível do Poder. Para a classe dominante não interessava apenas dominar o corpo dos indivíduos através da coerção policial, ela queria também dominar as almas, as idéias através da coerção simbólica. O Kardecismo ganhará aprovação social pelos Estados Totalitários (basta ver o crescimento das casas espíritas na Ditadura Vargas), enquanto os cultos mais africanizados que representavam uma ameaça aos valores do capitalismo industrial serão perseguidos e, mais tarde, em face de sua resistência, cooptados.
Assim pensar a origem da Umbanda, é resgatar um período histórico em que a classe dominante utilizou todos os recursos imagináveis (violentos e/ou simbólicos) para fiscalizar e conter uma imensa maioria negra, indígena e mestiça que estava começando a criar formas de sociabilidade completamente contrárias aos interesses do grande capital.
Postado por
XAVIER, Charles Odevan. Escritor profissional de livros especializados.
às
11:55
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