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domingo, 23 de setembro de 2012
NEGRITUDE E HOMOAFETIVIDADE NO ROMANCE O TRONO DA RAINHA JINGA DE ALBERTO MUSSA
NEGRITUDE E HOMOAFETIVIDADE NO ROMANCE O TRONO DA RAINHA JINGA DE ALBERTO MUSSA
O propósito deste ensaio é esmiuçar a construção dos personagens negros no romance O Trono da Rainha Jinga do escritor carioca Alberto Mussa (Rio de Janeiro: Record, 2007.)
Assim, o ensaio pretende analisar também o grau de pertencimento à cultura negra por parte de escravos ladinos, boçais, forros e o relacionamento com os chamados brancos. Até que ponto os brancos do romance estão certamente convictos dos valores judaico-cristãos católicos ibéricos ou de que forma esses brancos se misturam (ou se perdem) nos costumes dos pretos.
Também analisaremos a homoafetividade de um dos personagens do romance.
TENTANDO FALAR DO ENREDO...
O romance O Trono da Rainha Jinga está dentro de dois gêneros: o policial e o histórico. Embora o autor negue a segunda categoria no posfácio, inegavelmente a obra de Mussa se filia no espírito das tramas históricas.
A trama se passa em Angola, Goa e Rio de Janeiro seiscentistas e gira em torno de uma suposta heresia perpetradas por escravos negros, a heresia de Judas.
Há uma galeria multifacetada de personagens: Mendo Antunes, o armador e baleeiro lusitano que enricou em terras de Goa e vai para Angola por não se adaptar aos costumes indianos. Lá chega e passa a fazer transações comerciais com a Rainha Jinga, uma africana que o impressiona por falar fluentemente o português.
Gonçalo Unhão Diaz, o juiz e ouvidor geral brasileiro, que faz amizade com o baleeiro e divide com ele suas impressões sobre os supostos crimes perpetrados pelo grupo de heréticos escravos.
A preconceituosa e prepotente viúva do alferes e ferreiro, que a despeito de odiar os escravos; reconhece que sobrevive às custas das esmolas de um deles: o escravo
Cristóvão. Este escravo, por sua vez, tem importância na trama por ser membro da Irmandade (o grupo herético de escravos), por ser apaixonado por sua líder (a sádica escrava Ana) e por cometer desatinos com o próprio corpo em nome desse amor (como furar os olhos e queimar a língua).
Outro escravo importante na trama é Inácio. Educado por padres, aparentemente cristão, culto e alfabetizado. No final da trama revelar-se-á como peça chave nas onda de crimes contra senhores brancos.
Há também um curioso índio na trama. Ele é herborista e presta serviços para líder da Irmandade. Ele cria com os fármacos da mata as puçangas e o importantíssimo: divumo diazele, um
“violento e letal purgante de cujo preparo especialmente me orgulho” p.73
Este veneno terá importância capital na trama, pois a encomenda da líder da Irmandade detonará uma série de crimes:
“Ana conhecia a mandioca brava. Acreditei: se os portugueses trazem gente de lá, podem bem levar de cá uma planta que cresce praticamente em qualquer chão. Só estranhei quando me perguntou se eu conseguiria preparar com aquela raiz um veneno em pó, que não alterasse o paladar e a cor dos alimentos, e que tivesse um efeito tão mortal quando o da água que se esgota dela.” pp. 71-72
Há também uma feiticeira açoriana na trama amancebada com um forro velho, aleijado. A importância dela na trama é porque em sua casa onde recebe clientes brancos de várias procedências, ela receberá frades escondidos que vêm em procura de seus vaticínios. Acontecerá um crime com esses frades que é testemunhado por um dos clientes da feiticeira.
“Pois eu tinha ido lá, na dessa feiticeira. Era uma mulher sibilina, perigosa, que adivinhava o futuro e preparava filtros para os males do amor, da saúde e da fortuna.” p. 25
O ESTILO NARRATIVO
O Trono da Rainha Jinga é narrado por múltiplos narradores constituindo-se num romance polifônico. Isso torna a leitura rica e desafiadora, pois se o leitor não estiver atento à mudança de vozes narrativas perderá o fio da meada.
O narrador onisciente só aparece em alguns capítulos quando narra as peripécias envolvendo Mendo Antunes.
QUAL O PROPÓSITO DA IRMANDADE?
Na pág. 49 o escravo Cristóvão explica a origem da Irmandade:
“Fui dos primeiros irmãos. No início, éramos apenas três, dando fuga a escravos e roubando viandantes nas estradas. Muito dos que estão nos quilombos foram libertos por nós. Muitas das cartas de alforria adquiridas pelos padres foram pagas com o nosso dinheiro. Mas era uma subversão atormentada, sem plano. Pode-se mesmo dizer que não tínhamos um
objetivo. Até o aparecimento de Ana”
A HERESIA DE JUDAS
O escravo Cristóvão, autor do que passa a ser conhecido nas senzalas como Heresia de Judas, explica o sentido da mesma:
“Enquanto a irmandade se reestruturava, eu refletia. E compreendi, com base no seu próprio pensamento, que Ana não chegaria a lugar algum daquela forma; compreendi a verdadeira lição que se ocultava na história de Judas e Cristo. Se alguém quisesse remir a humanidade pela dor, não poderia ter permitido que esta fosse compartilhada por um outro homem. Judas sentiu em relação a Cristo o mesmo que eu, quando ajudei a trucidar aquele miserável.” pp. 50-51
“Foi quando comecei a difundir a verdade que logo ficou conhecida como a heresia de Judas. Essa verdade que passou a ser o assunto das senzalas. Porque basta um sofredor para que o bem geral se faça. Serei eu esse sofredor. Pelo amor de Ana. Ainda que ela me persiga, me expondo a prazeres que não quero suportar.” p. 51
A ATORMENTADA PSICOLOGIA DO FRADE
“ADIVINHAÇÃO (gr. (lavxeía; lat. Divinatío;
in. Divínation, fr. Divination; ai. Wahrsagung; it. Divinazioné).
Profetização do futuro, com base na ordem necessária do mundo.
Era admitida pelos estóicos, sendo, aliás, assumida como prova da existência do destino.
Crisipo achava que as profecias dos adivinhos não seriam verdadeiras se as coisas todas não
fossem dominadas pelo destino (EUSÉBIO, Praep. Ev., IV, 3, 136). Para Plotino, a A. é possibilitada
pela ordem global do universo, graças à qual todas as coisas podem ser consideradas sinais
das outras. Os astros, por exemplo, são como cartas escritas nos céus, que, mesmo desempenhando
outras funções, têm o papel de indicar o futuro {Enn., II, 3, 7). A A. baseada no determinismo astrológico foi admitida pelos filósofos árabes, especialmente por Avicena, e destes passou para alguns aristotélicos do Renascimento, como p. ex. Pomponazzi {De incantationibus,10).”
Dicionário de Filosofia/Nicola Abbagnano – 5ª ed. - São Paulo: Martins Fontes, 2007.
“Aquele que recorrer aos necromantes e aos adivinhos para se prostituir com eles, voltar-me-ei contra esse homem e o exterminarei do meio do seu povo.”
Levítico 20, 6
“O homem que se deita com outro homem como se fosse uma mulher, ambos cometeram uma abominação; deverão morrer, e o seu sangue cairá sobre eles.”
Levítico 20, 13
“ρονευωporneuo
1) prostituir o próprio corpo para a concupiscência de outro
2) estregar-se à relação sexual ilícita
2a) cometer fornicação
3) metáf. ser dado à idolatria, adorar ídolos
3a) deixar-se arrastar por outro à idolatria”
“733 αρσενοκοιτης arsenokoites
de 730 e 2845; n m
1) alguém que se deita com homem e com mulher, sodomita, homossexual”
DICIONÁRIO BÍBLICO STRONG Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong - SOCIEDADE BÍBLICA DO BRASIL
Na obra chama a atenção a quantidade de brancos católicos que absorvem parte das crenças africanas, como por exemplo os clientes do calundu da feiticeira açoriana (ela mesma uma branca que absorveu a magia negra europeia com ciganaria, judiaria e as religiões tradicionais africanas devido a sua amasia com o forro que a auxilia com pontos riscados).Da qual concluímos preliminarmente que estes brancos católicos ou não entenderam o providencialismo bíblico ou não o aceitam.
Mas um dos personagens mais curiosos é o frade carmelita.
O frade é cliente da feiticeira açoriana. E por tal hábito ele acaba sendo visto por outro cliente, que o reconhece enquanto frade e este cliente fica horrorizado de ver um homem do clero católico frequentando um lugar como aquele:
“Quando a conhecemos (porque fomos juntos eu e minha mulher) desejávamos enriquecer e não apenas deixar de passar fome. Tínhamos uma noção muito precisa do que fosse felicidade, no Rio de Janeiro, para não termos ambição. Por isso suportamos a espera no vestíbulo, abafados, amarfanhados, cercados por toda casta de gente e envolvidos por um bafio nauseabundo, até que o forro nos chamasse. A açoriana, sentada à mesa e coberta de colares e anéis de latão, tinha diante de si apenas um baralho sebento, que manipulava segundo vários métodos, naturalmente no exercício de decifrar sua mensagem.” pp. 25-26.
O frade carmelita ao ser reconhecido pelo cliente o suborna com duas patacas, pedindo discrição.
Vamos analisar a atormentada psicologia do frade. O frade se atormenta pela relação homossexual com outro frade chamado Francisco vaticinada pela feiticeira Açoriana, o que dá credibilidade ao trabalho dela perante o frade. E também se angustia por não esperar pela providência divina como ensina os códex do Vaticano, acabando por frequentar o calundu:
“Assim, a temporalidade do mundo, de que me deveria apartar (grifo nosso), me obcecou. E me envolvi com ciganas, cabalistas, astrólogos. Até pecar.” p.93
Vejamos como o frade encara a sua homossexualidade:
“Ainda não tinha enfrentado o olhar de ninguém: do prior, dos padres, dos meus companheiros de ordem (especialmente do irmão Francisco, a quem imundicei com a lama do pecado) e sequer dos escravos do convento (de quem nunca cheguei a ter suspeitas). O julgamento unânime dos homens certamente me atribuía alguma espécie de remorso ou vergonha. Talvez nem mesmo Deus houvesse de me compreender.” p. 91
A obra do jornalista João Silvério Trevisan Devassos no paraíso: (a homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade) – Ed. revisada e ampliada – 6ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2004. - nos ajuda a entender o motivo da angustiada orientação sexual do frade carmelita.
Também a obra historiográfica do antropólogo e militante gay Luís Mott sobre a homossexualidade na África lusófona e no atlântico negro é um guia para compreender os ansiosos e angustiados homossexuais seiscentistas.
Como também não podemos esquecer as duras palavras do Levítico no Antigo Testamento em relação aos chamados homoafetivos, que a Bíblia nomeia pelo adjetivo genérico de sodomitas.
Assim o frade confessa o gosto sodomita ao abade do convento:
“Falei da minha paixão por um prazer do século. Padeço desse mal (grifo nosso) desde antes de prestar meus votos. Os corações vulgares deverão dizer que amei ou amo através da carne. Não chega a ser assim.” p. 92
Ou seja, o frade experimenta o desejo homossexual mas o sataniza, o vê de uma forma pejorativa e depreciativa. Porque como frade ele introjetou a noção de culpa que penaliza os gays no Levítico.
E além de gay o Frade comete outro pecado: prostitui-se com necromantes e adivinhos.
Sim! Prostitui-se! Eis o pesado verbo bíblico para quem vai num macumbeiro.
Vejamos como ele afirma o seu “pecado”:
“De início jogar às cartas tinha um sentido meramente lúdico. Fascinavam a expectativa do sucesso e o temor do fracasso. Mas com o envolver do tempo, passei a experimentar, em determinadas ocasiões, a convicção acentuada de estar com sorte – o que se confirmava na maioria das vezes.
Por isso, porque aprendi a pressentir tais instantes, não me tornei um perdulário e não dispus da minha fortuna de família mais que o necessário para esse pequeno capricho do mundo.
Não sei como começou. Mas quando dei por mim, tinha formada uma noção concreta da previsibilidade do por-vir – que não necessariamente conflitava com o livre-arbítrio.
Minha tese encontrava apoio na próprias escrituras:
Cristo predissera a traição de seu primeiro apóstolo. Portanto, ao menos certos passos, certos momentos, certos eventos da vida estavam escritos, traçados por uma vontade superior, senão divina.” pp. 92-93
“Porque passei a crer, porque pretendi – de livre e boa vontade – ter o domínio do futuro. Não apenas para conhecê-lo; mas para jogar com ele.” p. 93
Deste modo, vemos um homem tipicamente seiscentista. Não podemos esquecer que o Brasil - a despeito de ser produto da Renascença e do ciclo das navegações comerciais mercantilistas - vive no espírito ideológico da Idade Média. Assim vemos um frade dividido entre o racionalismo, as heresias e o apego à ortodoxia judaico-cristã. Também é digno de nota que a na Renascença ainda há a Santa Inquisição e o Santo Ofício pune severamente hereges e sodomitas.
E por que seiscentista? Porque com o ciclo das navegações e a descoberta do novo mundo (o continente americano), o contato com mercadorias e ideologias da Índia e China e a escravidão compulsória dos africanos, o mundo ficou confuso, em crise de paradigmas.
De repente o medievo teocentrista e judaico-cristão perdeu credibilidade no contato dos viajantes com a feitiçaria africana. Sim! O homem não deveria aceitar passivamente a providência, o destino, o fado. Poderia alterá-lo e modificá-lo com magia e despachos. Assim, o mundo europeu desestabilizou-se.
E é nesse espectro do fetichismo africano, que surgem brancos como a feiticeira açoriana que não dispensa os pontos riscados do amante forro ou o frade carmelita que acredita nos seus vaticínios.
A cultura africana crê na fatalidade, que o destino do homem está predeterminado e pode ser “lido”. Seja através do opelé ifá, do meridilogun (jogo de búzios), do ngombo (estranho oráculo dos povos bantófones da África meridional). Qualquer método é válido para ler o destino seja com o cauri seja com o obi ou seja com os ossos do ngombo. Porque este povo pressupõe que cada um traz o destino de berço e basta ao babalaô, ao ndoki, ao nganga decifrá-lo.
O destino na cultura africana subsaariana de expressão iorubá-nagô é chamado de odu. E cabe ao babalaô olhar o búzio para saber com aquele cliente o que aconteceu no passado com um ancestral semelhante.
O Brasil, representando o novo mundo, também tem suas crenças indígenas nativas onde a relação entre os vivos e mortos fazem com que todos sejam meio vivos e meio mortos ao mesmo tempo. Pois há na cultura indígena um intercâmbio quase simbiótico entre o que o vivo faz e o que o seu ancestral morto quer e deseja para ele.
É desse mundo confuso seiscentista que surge um frade carmelita como o descrito pelo romancista Alberto Mussa.
Se ainda hoje os gays, principalmente aqueles que introjetaram algum valor judaico-cristão dos seus pais, experimentam algum grau de culpa pelos seus hábitos sexuais, imaginem para um gay naquela época.
Logo o frade gay e macumbeiro de Alberto Mussa tem total verossimilhança.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
No romance O Trono da Rainha Jinga o escritor carioca Alberto Mussa patenteia sua enorme erudição que concilia etnologia, linguística africana, história colonial com um enredo cativante e final surpreendente.
O EXU DE ALBERTO MUSSA
O EXU DE ALBERTO MUSSA
O propósito deste ensaio é analisar o personagem lendário africano Exu (ou Esu) no livro de contos Elegbara do escritor carioca Alberto Mussa – Rio de Janeiro: Record, 2005.
O EXU EM “ELEGBARA”
Na terceira narrativa homônima do livro Elegbara, Alberto Mussa constrói o seguinte enredo:
“Fazia oito gerações desde a chegada de Oraniã, o fundador, que Oió só vinha conhecendo opulência. Daí a apreensão de todo o povo quando o rei deixou de comparecer aos mercados; e o abatimento profundo que logo se seguiu quando começou a correr a notícia da enfermidade que certamente o levaria à morte.
O rei não morreu; mas também não melhorou. A doença tornou-se linear, permanente, estagnada como as águas que ficam para além de Ijebu – Odê. Foi quando Oió, a justa, a soberba, decaiu vertiginosamente. O cajado do rei não mais movia o mundo.
E as lavouras não vingavam; as mulheres não pariam; os ferreiros não forjavam; vendedores não vendiam; compradores não compravam. Houve seca e houve fome.” p. 49
Como diz o historiador Roberto Motta há na cultura africana uma simbiose entre o oba, o oni e o seu povo. Na cultura africana, diferentemente da ocidental,
“O regime econômico baseado na propriedade individual, no lucro particular, constitui novidade histórica. Só se encontra plenamente desenvolvido, no Ocidente, depois da Idade Média. Não faltam esboços de apropriação privada noutras culturas e época. Mas a regra é a subordinação do individual ao comunitário; das vantagens de alguns a interesses mais gerais. Só na Europa e em seus prolongamentos ultramarinos é que se encontra o tipo de economia autônoma, independente de direitos grupais sobre coisas e pessoas; desvinculada de controles éticos e religiosos; erigida em finalidade que contivesse sua própria justificativa, capaz de submeter a seus interesses todas as outras energias sociais e culturais.”
Assim, o Rei não age autonomamente, age em função do reino, em função dos clãs e tudo prospera.
Mas eis que surge um andarilho:
“Oió estava a ponto de desesperar, quando apareceu, de súbito, vindo ao que parece do país nupê, um estranho andarilho de sorriso debochado. Carregava um bornal e uma catana, fumava cachimbo e tinha um gorro preto e vermelho.
Parou bem na frente do mercado, onde se fazia uma assembleia. Foi notado por um dos mais velhos.
– O reino é morto. Os estrangeiros não são bemvindos.
– Não é esta, ancião, a fama de Oió, a justa. E eu vim pela justiça.
– Dize quem és e para onde vais.
– Não sei se hei ido ou se fui havido; mas irei ser e serei ido.
– O que queres andarilho?
– Quero apenas ser querido. Não é o vosso rei que se há tomado de um mal sem cura?
– É sem cura o mal; não houve sábio capaz de vencê-lo. Não há mais que fazer em Oió.
O andarilho deu então uma larga risada:
– Não é esta, ancião, a fama de Oió, a soberba. E vim pela galhardia.” pp. 49-50
O andarilho é Exu, o orixá africano das encruzilhadas. E como se define Exu na prosa de Alberto Mussa?
“-Eu sou andarilho antigo. Venho de andar muitas léguas. A terra é do meu tamanho. O mundo é da minha idade. Não há números para contar as proezas que fiz no tempo em que tenho andado: colhi mel de gafanhoto; mamei leite de donzela;esquentei sem ter fogueira; cozinhei sem ter panela; já fiz parto em mulher velha; emprenhei recém-nascida; trago a cura das moléstias e as perguntas respondidas. Quando soube do mal do vosso rei, vim oferecer os meus serviços. Só que tudo tem seu preço.” pp. 50-51.
Ou seja, o que é este andarilho? Qual o seu papel na sociedade africana? Exu é o nganga, um feiticeiro, um sortílego, alguém que domina as noves portas, os noves dons (vide a obra do historiador Wilson do Nascimento Barbosa).
Daí ele se sentir o máximo e poder prometer cura ao rei e ao reino da enfermidade, da perda de axé.
Os Ngangas na cultura africana nascem com os dons e os aperfeiçoam iniciando-se sozinhos ou em sociedades secretas no meio da mata. A mata com seus mosquitos, espinhos, frutas venenosas, mas também ervas e fármacos curadores, assim como hordas de espíritos da floresta é que é a escola dos ngangas.
Mas como todo bom feiticeiro ou sortílego, Exu não trabalha de graça.
“- Oió é justa e é soberba; o andarilho haverá o preço que pedir.
– Eu quero o preço justo.
– E que preço é esse?
– O que tenha a maior grandeza e caiba na menor medida.
Ninguém entendeu. Nem prestou atenção.
A fé humana está sempre além do próprio homem: o andarilho foi introduzido nos aposentos reais. E foram só trés dias. Todo o povo estava amontoado na praça do mercado quando as esposas saíram correndo do palácio para anunciar que o rei já estava de pé.
A festa foi programada para a feira seguinte, mas a alegria se antecipou. Oió tornava ao que tinha sido. E até uma chuva serena chegou a reavivar o colorido da savana ressequida.
Na data marcada, o rei reapareceu, cercado de pompa e aclamação. Dirigiu-se ao trono, no centro do mercado, e elevou a voz:
– Que venha até mim o andarilho da carapuça vermelha e preta!
Quando este se aproximou, o rei disse:
– A gratidão de Oió não tem medida. Que o andarilho diga o preço.
– Eu quero o preço justo.” pp. 51-52
Assim, o rei ofereceu várias prendas ao andarilho (cem peças de marfim, trinta catanas de ferro, dez partidas de contas de vidro, cinquenta escravos, entre outras).
Mas o andarilho sempre retrucava:
“- É pouco; e não cabe no meu bornal.”
Até que o Rei ofereceu o próprio reino como prenda:
“- É pouco; e não cabe no meu bornal.
Houve um breve silêncio e o andarilho prosseguiu:
– Não pode viver quem deve a vida. Eu quero a cabeça do rei.
Ninguém acreditava no que ouvia. O rei desabou sobre o trono aterrado:
– Como pode cobiçar minha morte quem veio para me curar? É um absurdo, uma covardia, uma infâmia, uma ingratidão!
– Não – disse o andarilho -, é o preço.” pp. 52-53.
–
E o final surpreendente da trama:
“E Oió não resistiu, como não resistiria pouco mais tarde ao assédio nupê. Compreendeu que, naquele momento, qualquer condescendência seria uma iniquidade; que o bem ideal era uma impossibilidade teórica.
E o andarilho caminhou na direção do rei, decepou-lhe a cabela, meteu-a no bornal e, antes de desaparecer na curva da estrada, gargalhou pela última vez:
– Ko si oba kan, ofi Olorun.
E tinha razão: não há rei senão Deus.
Elegbara é assim.” p. 53
Na metáfora da psicóloga junguiana Sônia Regina Corrêa Lages, O rei representaria o senex, o velho,o estabelecido, o estático, a ordem; enquanto Exu representaria o puer, o jovem, a instabilidade, o dinâmico, a desordem, o movimento.
Um pai de santo de umbanda cruzada com angola me advertiu certa vez que não brincasse com o Exu (já que estava tentando aprender a jogar búzios sem ter mão de Ifá e sem ter um pombo ungila assentado), pois segundo ele:
– Exu brinca com você mas você não brinca com Exu.
O Exu de Alberto Mussa não é com certeza o Exu-egum da quimbanda brasileira, mas tampouco deixa de ter a ambiguidade do Exu-orixá da cultura iorubá.
Quando os missionários pentecostais americanos foram a África e viram os igbás de Exu (um montículo de terra com um enorme pênis de madeira ou barro e sangue derramado) associaram o deus africano ao seu Diabo.
Assim, Exu foi satanizado pelo cristianismo pentecostal e neo-pentecostal e ambiguamente assimilado pela quimbanda brasileira.
Exu é orixá do movimento, da encruzilhada. A encruzilhada não é boa nem má, ela tem vários lados e várias possibilidades. E este dimensão multifacetada não cabe num Diabo cristão, que representa só o lado negativo da coisa.
Assim, o andarilho curou o rei e o reino, mas pediu a cabeça do rei porque não gosta da presunção.
A historiografia diz, que no Brasil, os escravos negros se utilizaram bastante de Exu para enfeitiçar os senhores brancos. Assim, Exu virou um aliado dos negros e não-negros pobres e um inimigo dos brancos ricos e poderosos.
Alberto Mussa elaborou um conto de fina erudição, baseada na sua biografia de capoeirista e praticante de umbanda e alabê de candomblé.
Os outros contos do livro merecem ser lido pois mostram a riqueza da cultura negra.
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